Dona Val

Borboletas não conseguem ver as próprias asas. Daí a dificuldade em entender o quanto sua beleza surpreende os demais, os comove. Chega a dar vertigens. A quem teve seu tempo de lagarta e de casulo, o voo em si parece bastar...

Nascida na Fazenda Esperança, no dia 12 de dezembro de 1936, no município de Ilhéus, Valderez Teixeira é cantora e compositora. Relicário de um tesouro que não esquiva em partilhar: cantigas e cantorias populares que circulam há gerações entre o povo sul-baiano.

Em seu bater de asas de borboleta, Dona Val vira o tempo, puxando o fio da tapeçaria da memória para espantar o esquecimento. Com sua voz suave e firme, ela nos diz: “Tem gente que não fala mais disso, aquele tempo, né? Aquele tempo era agora” [1] [2] [3] [4] [5] [6] [7] Ao lançar esse encantamento, Dona Val dispara uma flecha temporal que entrecruza temporalidades distintas, perdendo horas e dissolvendo o tempo cronológico. Sua voz embala e nos transporta a territórios de mata fechada, com pés de cacaus frondosos. Às lidas cotidianas do plantio, da colheita, da lavagem de roupa nos rios abundantes, no subir e caiar de casarios, das rezas entoadas com fervor.

No tempo em que “parentes visitavam as casas dos outros”, o cuidado com as crianças era comunitário. Quando Dona Val chegou ao seio familiar, a terceira de cinco meninas, a família já era numerosa. Sua mãe, chamada carinhosamente de Dindinha Rita pelos sobrinhos e filhos de criação, já havia acolhido Alberto, apelidado Dazinho, e Delmo como seus.

Registro e documentação não eram prioridade naquela forma de “adoção”. Dona Rita assumira a maternidade dos sobrinhos, um após o outro, ambos filhos de uma irmã que vivia no centro de Ilhéus. Seu esposo, pai de Dona Val, com ela se fez também “pai de criação”. Nas palavras de Valderez Teixeira, esse gesto atesta o quanto as famílias eram, de fato, unidas, mantendo laços estreitos não apenas nas festas, mas, sobretudo, no compartilhamento do cuidado cotidiano. Aos dois filhos de criação somaram-se os naturais. Além das cinco meninas, vieram outros dois meninos: Cláudio, mais velho que Dona Val, e Rosivaldo, o caçula, que, mais tarde, além de seguir carreira militar, chegou a tocar banjo profissionalmente em rádios.

Esse núcleo familiar pulsante abria, ainda, suas portas a familiares e amigos, especialmente na Semana Santa. Nas memórias de Dona Val, todos os que viviam por Ilhéus (como ela se refere ao centro da cidade) se deslocavam para a celebração, que durava de dois a três dias e envolvia o preparo de muita comida. Em seus dizeres: “a cozinha era da mãe. E as filhas — quando tinha filhas, né? — ficavam ali: a mãe fazendo, e elas prestando atenção para aprender”.

As distâncias não eram capazes de romper os laços familiares cultivados por afeto e presença constante. Sentindo as diferenças nos tempos de hoje, Dona Val atesta: “E a gente nunca se separava dos parentes. Assim, podia morar longe, de uma fazenda longe, mas sempre vinha visitar. Hoje em dia, aqui, quase nada... [...] passa trinta, quarenta, cinquenta anos sem ver um irmão, né? Daqui a pouco acha na internet. Tá bom a internet, né?”.

Em suas lembranças, há vivências enraizadas em um profundo senso de comunidade. As pessoas se apoiavam e se cuidavam, sobretudo nos momentos de resguardo. No pós-parto, as mulheres se amparavam mutuamente. As vizinhas assumiam os trabalhos da casa e os cuidados com a parturiente e o bebê, para que a mãe permanecesse deitada por, pelo menos, três dias; com os ouvidos tapados, resguardada de gritos ou zoadas que pudessem romper aquele silêncio necessário à recomposição do corpo e do espírito.

“Fazendeiros davam o terreno para as pessoas que gostavam de trabalhar”, nos recorda Dona Val. O pai plantava roça de mandioca, milho e feijão, com a ajuda dos filhos e dos amigos. Valderez, no entanto, confessava fazer as tarefas com certa preguiça, pois em vez de plantar três caroços em cada cova, lançava um punhado de uma só vez, apressando o fim do serviço. A trama, porém, logo se revelava. Em lugar de ramas viçosas, seus plantios nasciam em moitas emboladas, que impediam o crescimento forte e sadio das mudas.

Naquele tempo e espaço, cabia aos homens a principal responsabilidade pelas roças. Em sua casa, porém, quando regressavam do trabalho, abria-se outro tempo: o de tocar e cantar. Violão, cavaquinho, pandeiro; e o convite bendito: “Aí me chamavam ‘Dereis’ [para cantar] [...] como as mais velhas tinham a vida da minha mãe, eu me sentava; não tinha o que fazer, né? Sentava e ficava olhando, eles vinham tocar, cantar”.

A influência dos irmãos e do pai revela-se, de modo evidente, no gosto pela música e, sobretudo, no acesso a diversos instrumentos, que a menina Val logo aprendia a manusear: “quando eles arriavam os instrumentos lá, a gente pegava e começava”. Mas, quando o assunto era a cantoria, havia uma fonte de inspiração ainda mais nítida: “Tentei cantar porque minha mãe gostava muito de cantar. Ela não era cantora; cantava assim, nas casas de rezar [...] e, também, na igreja. Gostava, ainda, de outras músicas, mas em casa, né? Não cantava de modo profissional. E é daí que vêm as músicas, vêm de casa mesmo”.

A menina “Dereis” fez-se Dona Val nas vivências infantis tecidas no universo musical dos adultos que a cercavam. Lembrava-se de que, ainda muito pequena, ficava a observar o povo cantando, um puxava, outro respondia; e que foi nesse movimento de escuta e encantamento que se entusiasmou pela cantoria. Gostou, aprendeu e, desde então, nunca mais esqueceu.

Mas não era só a música que atravessava seus olhos de menina, também as tensões e incoerências do mundo adulto resvalavam em sua imaginação:

“Era nessa base que eu via os homens chegando lá em casa, né? Conversando com meu pai: ‘Mas a guerra está danada... A gente está fazendo medo...’ e não sei o quê. Quando falavam que a guerra vinha ali, eu saía na portão: ‘Eu vou olhar. Se a guerra vier ali...’ — e já pensava num facão. [...] Eu pegava um pedaço de facão, daqueles de quebrar cacau, sabe? Aí dizia: ‘Deixa eu ver se está amolado, porque, quando a guerra vier ali, eu...’ [...] Pegava o facão e ficava no portão. Depois fui ver quantos anos eu tinha. Quatro. E eu me lembro... quatro anos. Três, quando começou [a guerra], né? [19]39 a 45. Foi isso mesmo”.

Para Dereis, o tempo da escola demorou a chegar. Em seu território, o letramento veio pelo esforço doméstico. Foi entre as paredes de casa, sob a tutela do pai e da irmã, que descobriu as letras antes mesmo de completar treze anos. Não se tratava, como recorda Dona Val, de fraqueza do lugar, mas de ausência, não havia escola por perto. Ainda assim, Dereis também se formava nas brincadeiras de comadrio com as vizinhas. Brincar de boneca era um ensaio da vida que se desenhava no horizonte. Montavam-se casinhas, e enfeitava-se tudo com o que a roça oferecia, num espelhamento doce do cotidiano partilhado na comunidade.

O Salobrinho acolheu Dona Val num dia de Natal: 24 de dezembro de 1949 [1] [2] [3] [4] [5] [6] [7] [8] Àquele tempo, o distrito era apenas o rastro de uma fazenda, cujas terras iam sendo, pouco a pouco, cedidas. Quando ali chegou, eram apenas sete casas a pontuar a paisagem.

Em março de 1950, deu-se o primeiro encontro com a escola formal. Ali, Dereis foi matriculada na segunda série e, sob o olhar atento de Maria de Lourdes Lemos, sua mestra, que ensinava “sem pegar, sem olhar”, cursou até a quarta série. Naquelas salas, como lembra Dona Val, tudo se misturava. Brancos e pretos, pobres e os “melhorzinhos de vida”, todos juntos. A desconfiança inicial, de quem preferia se resguardar pelos cantos, cedeu, pouco a pouco, lugar a amizades que atravessariam décadas.

A fotografia de fim de ano captura uma menina que se sentia desvalorizada, recolhida sob o peso da timidez, a despeito de a professora tê-la colocado à frente, em posição de destaque. O ciclo escolar, contudo, interrompeu-se aos dezesseis anos. O noivado, e a crença de que o casamento era o destino da vida, passou a ocupar o lugar do cotidiano da escola. O horizonte do matrimônio desenhava-se em linhas de autoridade, sob destinos que pareciam irrevogáveis. Dona Val recorda-se de uma prima que, aos treze anos, foi “carregada” de um noivado a outro, conduzida à casa do pai, onde a honra se assegurou pela exigência de um casamento imediato.

Viver o casamento, naquele tempo, era habitar espaços rigidamente demarcados, nos quais o homem se investia da condição de “dono” e autoridade máxima. Dona Val descreve um cotidiano de silêncios e interdições: o marido não entrava na cozinha, e os filhos tinham hora e modo para adentrar o quarto do pai. Era um tempo em que o trabalho feminino se via com desconfiança, sob o pretexto de que a independência financeira tornaria a mulher “ousada”. Com a lucidez de quem atravessou décadas, ela observa o contraste entre o ontem e o hoje, reconhecendo que o autoritarismo de outrora cedeu lugar ao diálogo — ainda que seu companheiro, o “rapaz centenário”, guarde em si traços daquele tempo antigo.

Apesar das rigidezes, Dona Val guarda doçura ao falar da permanência. Diferentemente do que enxerga na juventude atual, para a qual o casamento, por vezes, se apresenta como uma “aventura” passageira, sua geração estava acostumada a viver onde o destino plantasse raízes. Mesmo diante de convites para o Rio de Janeiro ou para o centro da cidade, o Salobrinho permaneceu como seu porto seguro. É ali, naquele pedaço de chão que ela viu nascer, que todas as suas histórias, da infância aos 89 anos, se entrelaçam; provando que, para um coração em paz, nunca é tarde para encontrar a felicidade no lugar que se escolhe chamar de lar.

No caso de Dereis, "o amor falou mais forte" como hoje versifica em seu caderno, transformando em música a memória de uma união que não lhe traz arrependimentos, pois gerou os oito filhos a quem chama, carinhosamente, de “cordas do meu coração”. Com eles, compartilhou os dias, o amor e a fé.

A espiritualidade de Dona Val não nasceu em altares de mármore nem em ritos distantes, mas no pisar do chão de terra e na lama das procissões que desafiavam a chuva. Para a menina que, aos dez anos, já empunhava o catecismo para rezar o Ofício sozinha, a fé sempre se fez diálogo direto e íntimo: um pedido a São José por uma casa, uma promessa a Santo Antônio, um louvor a Nossa Senhora da Conceição. Era, também, instrumento das promessas alheias, voz convocada pelas vizinhas, dando corpo à devoção coletiva nos trezenários e nos meses de Maria.

Sua religiosidade, forjada na liberdade do campo, transplantou-se para o Salobrinho. A igreja local nasceu sob seus olhos. Dona Val viu a primeira pedra ser lançada onde antes funcionara uma padaria, quando a praça ainda era um terreno baldio. Recorda, com nitidez, o tempo dos frades Domingos e Thiago, quando as missas eram raras e as orações aconteciam “dentro da lama”, com os primeiros filhos ainda pequenos a tiracolo

Com o passar dos anos, a coordenadora dos círculos bíblicos tornou-se a voz do ambão. “Seu lugar é aqui”, diziam-lhe os seminaristas, ao lhe entregarem o microfone para que conduzisse, sozinha, a musicalidade de missas inteiras. Mesmo quando as pernas começaram a cobrar o preço das caminhadas, e as dores a faziam se “pinchar” pelos cantos, ela não recuava. Sua presença era um chamado às vizinhas, que a acompanhavam em oração pelas casas. Hoje, embora o cansaço lhe imponha limites e já não permita cumprir o antigo itinerário, Dona Val contempla, com serenidade, o legado que semeou: muitas das vozes que ainda ecoam nos bancos da igreja foram por ela formadas, num tempo em que cantar e rezar eram formas de sustentar o mundo.

Também a solidariedade entre as mulheres, que Dona Val conhecera nos tempos de resguardo na fazenda, manifestou-se, no Salobrinho, de forma urgente, transformando as mãos da cantora em mãos de amparo. Ela recorda o dia em que uma vizinha, “agoniada” pelas dores do parto, ia e vinha pelo passeio da casa, enquanto o marido buscava a parteira. Na ausência de condução para o hospital e diante da iminência da vida que pedia passagem, foi Dona Val quem atendeu ao chamado.

Com a calma de quem confia que “só Deus para mandar”, ela ajeitou a vizinha, colocou-a em posição e, com a naturalidade de quem cuida do que é sagrado, aparou a criança que chegava ao mundo. “Não fui profissional”, ressalva, com modéstia, ao contar que a parteira de ofício só chegou a tempo de cortar o umbigo; o gesto, contudo, ficou marcado como mais uma extensão de seu servir.

Essa passagem revela a essência de Dona Val: uma mulher que não se esquiva da necessidade do outro, seja para rezar um Ofício, para cantar no ambão ou para amparar o nascimento de um novo vizinho. Para ela, a expressão “dar à luz” carrega profunda reverência; ecoando as palavras que ouviu do padre, compreende que a verdadeira luz é Jesus, mas, em seu cotidiano, faz-se reflexo dessa claridade ao estender a mão nos momentos de agonia. Entre a voz que encanta e as mãos que acolhem a vida, Dona Val reafirma que sua história é tecida por uma rede de afetos em que ninguém fica só.

A identidade de Dona Val, tal como uma de suas canções, compõe-se de vozes diversas que se encontram. Filha de uma mistura profunda — avós de pele clara e cabelos crespos, avôs negros e indígenas, cuja etnia o tempo e o desinteresse de outrora não permitiram nomear —, ela traz no sangue a síntese do povo grapiúna.

Essa consciência de si, contudo, nem sempre existiu. Houve um tempo em que a desconfiança a levava a perguntar a si mesma se já se vira negro se maquiar. Foi por meio de uma revista da Avon e do incentivo de uma vizinha que Dona Val começou a perceber que a beleza não tinha cor; ou, antes, que a sua cor possuía uma beleza própria, com regras de contraste e realce que ela passou, mais tarde, a ensinar em reuniões. De vendedora de cosméticos a mestra de si, acompanhou a transformação do mundo. De um tempo de exclusões a uma atualidade em que, como afirma, “ninguém é melhor do que ninguém”, e em que acessos antes restritos aos ricos se afirmam como direitos de todos.

É no palco da vida que a "Dereis" desconfiada cede lugar à Dona Val de autoridade Com seu nariz arredondado, lábios grossos e o orgulho inscrito no rosto, apresenta-se aos jovens como um manifesto vivo: "Sou negra sim e devo ocupar o meu lugar na sociedade". Quando entoa versos sobre a senzala e o “negro nagô”, não apenas evoca um passado de correntes e algemas, mas celebra, sobretudo, a liberdade de ser, ao mesmo tempo, sambista e doutora.

Embora o corpo já não lhe permita a dança inteira, limitando-a hoje ao balanço do tronco enquanto a voz faz o trabalho mais intenso, a mensagem de Dona Val irrompe como um trovão que faz a “molecada ir à loucura”. Ela ensina que o negro não é inferior e que a história de submissão ficou para trás. Aos 89 anos, é prova viva de que a beleza da borboleta, uma vez descoberta, jamais retorna ao casulo.

Se hoje se encenam “cenas” de mulheres lavando roupa para o olhar estrangeiro, ela recorda a verdade de sua própria bacia: o canto que brotava espontâneo, puxado pela memória da mãe, que fazia de tudo, da enxada à cozinha, acompanhada pela própria voz. Confessa que há dias em que já não consegue permanecer de pé; então, chega à beira da pia, senta-se e canta, mostrando que a música é o esteio que sustenta o corpo quando as forças parecem faltar.

A transição de mãe de família anônima para artista reconhecida deu-se por uma ponte estendida entre o Salobrinho e a Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC) [1] [1] quando comunidade e academia se encontraram no grupo Arco e Movimento. Por insistência de estudantes e professores, como Maria de Lutti, Dona Val levou sua vivência de lavadeira para dentro da universidade e também para os palcos. O grupo, que reunia capoeira, maculelê e poesia, tornou-se o relicário de suas saudades mais profundas, permitindo que o povo do Salobrinho pisasse, enfim, com altivez, no chão universitário.

Nessa travessia, a voz de Dona Val fez ruir muros de autoridade. Ela recorda, com carinho, a reitora Renee Albagli que, ignorando hierarquias, lhe pedia que cantasse após as apresentações, como ocorreu em Porto Seguro, durante as celebrações dos 500 anos do Brasil. Conta que chegava ali, naquele meio, e soltava o gogó, revivendo a emoção de ver docentes e desconhecidos em lágrimas diante de seu canto.

A consagração definitiva veio no asfalto, em frente ao Teatro Municipal de Ilhéus. [1] [2] [3] Ali, cercada por outras mulheres, Dona Val viu a plateia se comover profundamente ao som de “Adeus, minha borboleta”. Entre o Teatro e o Pontal, tornava-se nítida, aos presentes, a sua missão de embalar a memória coletiva de uma região. A “Dereis” que outrora se escondia, desconfiada, nos cantos da sala de aula havia se transformado, de modo definitivo, na Dona Val que emociona e abraça.

Sua consagração, porém, não se limitou aos tablados de Ilhéus [1] [2] nem aos pátios da universidade. Alcançou também as telas do cinema e o coração da capital. No ano 2000, a menina que um dia temera a guerra, armando-se com um “pedacinho de facão de quebrar cacau”, partiu para Salvador, a fim de integrar o elenco de Eu me Lembro, de Edgar Navarro. [1] [2] Foram dois meses longe do Salobrinho. Um tempo de exílio e estranhamento que, como tudo em sua vida, acabaria por se transformar em música.

No silêncio da saudade, ela empunhou a caneta e o caderno. Se antes recorria ao dicionário e à Bíblia em busca da palavra exata e do tom sagrado, ali descobriu que a melodia já habitava dentro de si, nascendo “devagarinho”, à medida que os versos se deixavam inscrever no papel. O reconhecimento veio em 2005, com um prêmio que não pôde buscar, mas que rendeu uma história digna de filme. Tamanha foi a emoção de Navarro que, ao subir ao palco para receber a honraria em nome de sua estrela grapiúna, o cineasta caiu e quebrou o pé. Um episódio que Dona Val recorda com um misto de graça e espanto. Prova de que sua presença, mesmo quando ausente fisicamente, é capaz de abalar estruturas.

Hoje, Dona Val é uma operária da canção. Cria músicas e busca vozes que lhe façam coro, embora, muitas vezes, termine cantando sozinha; como em busca de alguém que repetisse o estribilho de sua "Luz Acesa" A solidão do canto, porém, se desfaz quando ocupa espaços de poder, como a Câmara de Vereadores. Ali, ao entoar “Minha Cor é Marrom”, viu o protocolo ceder à força de sua identidade. O povo, tomado de entusiasmo, já não a deixava sequer concluir as estrofes. O refrão convertia-se em hino coletivo, celebração da raça negra e das múltiplas gradações de marrom que compõem o nosso povo.

Aos 89 anos, Dona Val olha para trás e percebe que, embora não possua fotografias de quando era a pequena “Dereis” — naquele tempo, a verba era curta, e a “internet”, um sonho impossível —, traz em si algo muito mais perene. É a inteligência viva da comunidade, a memória que não se encerra, mas transborda para aqueles que a procuram. Se hoje os bisnetos já nascem “no mundo todo”, através das telas, Dona Val permanece como raiz necessária, prova de que o estudo vale tudo, mas é o gogó e a coragem de ser quem se é que sustentam o brilho de uma luz que nunca se apaga.

A trajetória de Dona Val demonstra que o destino não pede licença. Grava-se como em fitas cassete e atravessa as fronteiras do Salobrinho sem alarde. Ela nunca precisou de fonoaudiólogos nem de aquecimentos vocais elaborados; sua voz é de clima, temperada pelo sol da roça e pela umidade da beira do rio. Quando surgiu o convite para a televisão, a desconfiança de outrora, a mesma que a fazia se encolher no canto da fotografia escolar, ainda lhe sussurrava que uma mulher “negra, baixa e pobre” não teria lugar sob os refletores. Mas a arte, quando é legítima, tem pressa de ser ouvida.

Foi por intermédio do filho, mestre de capoeira e conhecedor das andanças da mãe, que a “música de roça” chegou aos ouvidos de quem buscava a alma do sul da Bahia para a teledramaturgia brasileira. Dona Val resistiu, dizia não querer “ir para a televisão”. O filho, porém, com a astúcia de quem reconhece o tesouro que tem em casa, gravou-lhe a voz às escondidas. Quando os pesquisadores ouviram aquele registro, a busca tornou-se urgente. Queriam saber onde estava aquela mulher.

Assim, a voz de Dona Val converteu-se na trilha sonora do banho de Mariazinha, uma das imagens mais emblemáticas da teledramaturgia em Renascer. Mas a joia de seu repertório, "Adeus, minha borboleta" , não é peça imóvel, é obra viva, lapidada pelo tempo. Da cantiga de roda aprendida na infância, em que o céu era apenas “riscadinho de anil”, ela fez nascer outra cosmologia: “o céu está brilhando, está cheinho de estrelas / iluminando a borboleta, parabéns, sua beleza”.

Ao trocar o "correr do cavaleiro" pelo voo da borboleta, Dona Val reescreveu sua própria biografia. Ela deixou de ser apenas a menina que buscava observar a guerra no portão de casa para se tornar a mulher que ensina que a beleza deve ser celebrada com "parabéns". Sua música é um diálogo entre o ontem e o agora, onde a lua e o "bem querer" são os únicos destinos possíveis. O povo se apaixona por suas canções porque nelas há a verdade de quem descobriu que, enquanto a borboleta voa, ela corre — não por medo ou obrigação, mas para alcançar a própria luz.

O alcance de Dona Val atravessa o oceano e as fronteiras do país, conectando a Mata Atlântica à África e o Salobrinho ao coração de São Paulo [1] [2] [3] De lá, pesquisadores e radialistas deslocam-se apenas para ouvir o que essa mulher tem a dizer sobre a vida e sobre a “borboleta” que se tornou símbolo de sua existência. Ela conta, com a naturalidade de quem oferece um café, a história de uma moça que cruzou o país por reconhecer, em seu desenho de borboleta, o espelho do próprio pai que partia. É essa capacidade — a de ser ponte entre o íntimo e o coletivo — que a define como a artista que, por vezes, ainda reluta em admitir que é.

“O povo me chama de cantora, mas eu não sou cantora; eu gosto é de cantar”, afirma, defendendo a pureza de um dom que nunca passou por exames de garganta nem por exercícios de fonoaudiologia. Para ela, a arte é orgânica, nascida do convívio e do apoio de figuras como Emiron Gouveia e do coletivo Mulheres em Domínio Público Embora tenha gravado na rádio da UESC e sua voz já tenha circulado pelo mundo, Dona Val mantém os pés fincados na simplicidade do Salobrinho. A fama, como bem observou sua neta em uma homenagem na Câmara, “não lhe subiu à cabeça”.

A modernidade é por ela vista com uma lucidez desarmante. Se o “menino da Globo” insiste em dizer que deveria estar nos grandes centros, Dona Val responde com o cansaço honesto de quem prefere o chão firme ao balanço de duas horas num céu desconhecido. O Instagram e as senhas digitais ficam sob os cuidados da produtora Tassila, pois ela prefere não “bagunçar” o que já está em ordem. Até mesmo o dinheiro, os mil e quinhentos reais que muitos julgaram pouco, é recebido com gratidão, mas sem a ilusão de que a riqueza possa, porventura, transformá-la. “O que vier é bem-vindo”, diz ela; sua verdadeira segurança, porém, reside no salário da aposentadoria e na vida simples que construiu.

Dona Val habita um tempo em que o prestígio não se mede por seguidores, mas pelo respeito dos vizinhos e pelo brilho nos olhos de quem a descobre. É a inteligência que não se encerra, a memória que se oferece a quem deseja aprender. Aos 89 anos, Dona Val não é apenas uma voz que canta, é o próprio relicário da alma grapiúna. Uma luz acesa que, silenciosamente, continua a iluminar o caminho de quem busca o verdadeiro “bem-querer”.

Nessa altura da vida, volta-se para as “meninas” do coletivo Mulheres em Domínio Público e para cada estudante que atravessa seu portal com a gratidão de quem compreendeu que a verdadeira riqueza reside no compadrio. Pergunta, então: “o que seria de mim sem essas meninas?”, reconhecendo que, no entardecer da vida, são esses encontros que dissipam qualquer sombra de arrependimento.

Sua memória é um fio que costura gerações. Recorda, com doçura, o vizinho de 75 anos que lhe trouxe um bolo de aniversário — um menino que ela viu nascer quando contava apenas quatorze anos. Ele é o fruto vivo de uma ética do cuidado herdada de sua mãe: a de que, em casa de “mulher parida”, não se pergunta o que é preciso fazer; chega-se, simplesmente, varrendo, lavando e cozinhando.

Embora as fotografias da infância tenham se dissolvido no tempo ou se perdido no silêncio de alguma gaveta, Dona Val não carece de imagens. Guarda-as no corpo, na voz e na memória que insiste em florescer. Observa o mundo de hoje, em que os bisnetos já nascem “no mundo todo”, atravessando telas, com a admiração serena de quem reconhece o valor do progresso e a agudeza dos mais jovens. Ainda assim, sabe que carrega um tesouro que nenhum arquivo digital é capaz de conter: cultura que se reparte, alimento para quem deseja atravessar o visível e alcançar o que pulsa por dentro.

Ao "chegar aos 90" Dona Val consagra o tempo com a sua celebração. Sua casa torna-se santuário, a novena ecoa como extensão de sua própria respiração, e o peito se abre como terreiro para acolher quem chega. A borboleta que um dia temeu a guerra, empunhando, pequena, um facão de quebrar cacau, hoje voa alto, sem precisar enxergar as próprias asas. Sabe que sua beleza está na música que deixou vibrando no ar, nos corpos que ensinou a cantar, nas mãos que amparou, nas vidas que tocou.

Dona Val converge em si memória e permanência. É canto que atravessa gerações, é ponte entre mundos, é raiz que sustenta e vento que espalha. E, enquanto houver alguém disposto a escutar, sua voz seguirá acesa, como uma luz mansa e infinita, iluminando o caminho do bem-querer.

"Eu quero ser luz acesa para sempre e vou brilhar, para clarear o caminho onde o amor passar. O amor é tudo, acima de tudo."