Pesquisar, escutar, reunir memórias
Como idealizadora, pesquisadora e coordenadora geral do Museu Afroindígena Sul Baiano, acompanhei de perto o processo de pesquisa que deu origem aos conteúdos apresentados neste espaço. O processo de pesquisa foi uma oportunidade de conhecer, com maior profundidade, trajetórias que fazem parte da história cultural do Sul da Bahia.
Ao longo de meses, nos dedicamos a reunir informações, documentos, imagens, relatos e referências sobre as oito personalidades que integram esta primeira edição. Mas, acima de tudo, nos dedicamos à escuta. Cada pesquisa exigiu um percurso próprio, considerando as particularidades de cada trajetória, os contextos em que essas pessoas viveram e atuaram e as diferentes formas pelas quais suas contribuições permanecem presentes no território.
Esse trabalho foi realizado por uma equipe fundamental para a construção do museu. Mither Amorim esteve à frente da coordenação de pesquisa, contribuindo com sua experiência de historiador e pesquisador das relações étnico-raciais, mas também seu olhar de artista, compositor, mestre também das palavras e ritmos. As pesquisadoras Ana Carolina de Matos Santos e Natigrê (Natália Santos) participaram diretamente desse mergulho nas trajetórias, na organização das informações e na construção dos conteúdos. Cada uma, também trazendo suas vivências. O trabalho coletivo nos permitiu confrontar fontes, levantar novas questões e compreender que cada biografia é também parte de uma rede mais ampla de relações sociais, culturais e históricas. Thierry Brito, idealizador e diretor geral do projeto, nos trouxe a questão: “Como cada uma dessas pessoas gostaria de vista?”
Partimos daí.
Pesquisar essas trajetórias também nos colocou diante dos limites de qualquer tentativa de registrar uma vida. Não seria a memória uma ilha de edição? Há memórias familiares, acontecimentos pouco documentados, diferentes versões de uma mesma história e aspectos que só aparecem quando alguém se dispõe a contar. Por isso, a escuta foi a ferramenta que esteve à frente e nos orientou durante todo o trabalho. Horas e horas de entrevistas gravadas, com risadas, choros, suspiros e um mar de memórias precioso. Na verdade, oito grandiosos oceanos.
Entre essas experiências, a trajetória de José Carlos Ngão ocupa um lugar particular. Tivemos a oportunidade de realizar parte da pesquisa enquanto ele ainda estava entre nós, acompanhando seus relatos, conhecendo documentos, fotografias e objetos que guardava de maneira muito organizada em seus drives, pastas, arquivos de memória. Ngão nos deixou após a conclusão da pesquisa. Ter podido ouvir suas histórias e registrar parte de sua trajetória nos últimos meses de sua vida reforça a importância de iniciativas que contribuam para preservar essas memórias enquanto elas ainda podem ser compartilhadas pela voz de quem as viveu.
O resultado apresentado neste site é fruto de um processo de pesquisa e de encontros. É uma tentativa de registrar e disponibilizar parte dessas histórias, reconhecendo que a construção da memória é um processo contínuo. E tornou-se possível também pelo apoio financeiro investido na cultura através da Política Nacional Aldir Blanc. Todo o braço de pesquisa desse projeto foi contemplado pelo Edital de Chamamento Público nº 007/2025 da Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania da Política Nacional Aldir Blanc em Itabuna-BA, com apoio da Prefeitura Municipal de Itabuna, por meio da Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania – FICC, via PNAB, direcionado pelo Ministério da Cultura – Governo Federal.
O MASB nasce também dessa perspectiva: como um espaço que pesquisa, registra, compartilha e amplia as possibilidades de acesso às memórias afro-indígenas do Sul da Bahia. Esta primeira exposição é um ponto de partida. Há muitas outras trajetórias a serem conhecidas, pesquisadas, registradas e incorporadas a essa construção.
Camila Camuso
Idealizadora, produtora e pesquisadora do Museu Afroindígena Sul Baiano
Núcleo de Pesquisa
Mither Amorim – Coordenador de Pesquisa
Camila Camuso – Idealizadora, produtora e pesquisadora
Thierry Brito – Idealizador, diretor geral e pesquisador
Ana Carolina de Matos Santos – Pesquisadora bolsista (UESC)
Natigrê (Natália Santos) – Pesquisadora bolsista (UESC)
Tallyz Mann – Revisora
























