Alba Darabi

Ora, Yê Yê Ô. A água é nossa casa. Quem nunca morou nela? Em grande parte, somos omi. Foi nas águas do Rio Cachoeira, onde o destino de tantas mulheres se esfregou com pedra e sabão, que cresceu Alba. Nossa mãe, Alba Darabi, voz que se recusou a ser silenciada pela correnteza da invisibilidade. Em suas densidades, fluímos.

A árvore genealógica de Alba mergulha nas raízes profundas de Diva Maria de Jesus, mulher preta, filha de uma união marcada pelo silenciamento: seu pai, homem branco, jamais a registrou. Alba, por sua vez, nasceu ao menos duas vezes. Na primeira, veio ao mundo do ventre de sua mãe, Diva, em 20 de agosto de 1963, no Hospital Manoel Novaes. Na segunda, gestada na poesia e no teatro por amigos como Mário Gusmão, renasceu para o Orixá. Era 10 de maio de 1993 quando, no Ilê Axé Ijexá Orixá Olufon, confirmou-se aquilo que a ancestralidade já havia profetizado.

Tempo tem margem? Há marginais? Se não fosse o nosso julgamento humano, haveria hierarquia nos movimentos que compõem a história? E qual o lugar de uma mãe que decide caminhar no fio da navalha para garantir o nascimento e a vida de sua filha?

Diva Maria de Jesus fez da filha o centro do mundo e, por isso, escolheu ainda mais as margens, sentenciada ao desabrigo. Saiu da roça, em Ubaitaba, onde viviam, e seguiu em direção à urbe, para que a vida da filha não fosse interrompida pelo julgamento de sua própria família. Grávida de Alba aos dezesseis anos, enfrentou o ultimato da mãe, que exigia o aborto sob a ameaça de expulsão de casa. Vista na rua, grávida e ao léu, foi convidada por uma cafetina a morar numa casa de meretrício. E aceitou. Foi ali que conheceu o homem que, por um período, até que o tempo o revelasse como abusador, seria tido por todos como o pai de seus filhos.

Depois, partiram para Itabuna. Na chamada “cidade da Pedra Preta”, Diva tornou-se lavadeira de ganho. Esse ofício sustentaria a sua vida e a de seus doze filhos, mesmo após a separação do marido, pai dos onze irmãos de Alba que ainda viriam. Em Itabuna, Alba, a primogênita, nasceu no Hospital Manoel Novaes.

Além de água, Alba sempre foi artista, atriz e poeta. Na infância, acompanhava a mãe ao Rio Cachoeira, onde lavavam roupas e as estendiam sobre as pedras, ao sol, para quarar. As “patroas”, donas das peças, faziam o rol quando as lavadeiras chegavam, abusando da estadia. Colocavam-nas para lavar banheiros, pratos, para cuidar dos filhos. Tudo isso enquanto as roupas eram contadas. Muitas vezes, o pagamento vinha apenas em restos de comida. O dinheiro só aparecia quando as peças retornavam lavadas, passadas e dobradas.

Foi do convívio com lavadeiras como Dona Arlinda e Dona Carminha, e com a própria mãe, nas conversas sobre as durezas da vida e nas fofocas que corriam à beira do rio, que Alba extraiu a matéria-prima de suas personagens. Ali, Alba aprendeu a ler o mundo: raça, classe, gênero, idade. Tudo se inscrevia na paisagem, junto às manhas necessárias para driblar a fome e a violência. Ali estavam a matéria de sua poesia, natureza, resistência e arte. Cercada por águas, sentia, no entanto, a secura violenta de uma sociedade marcada pelo coronelismo machista. Uma terra rica em frutos, mas governada por lógicas que condenavam muitos de seus filhos à fome, ecos persistentes da colonialidade do poder no sul da Bahia.

Ainda assim, do fundo de seus silêncios, ao testemunhar a força das lavadeiras, Alba não se rendia. Mantinha a altivez e, com tudo isso, criava. Ao chegar em casa, refazia as personagens com quem convivera ao longo do dia, encenando o mundo diante do espelho. Seu modo de ser soava, para a mãe e para a família, como desvio. Diziam-na doida, abilolada. E a mãe, entre o cansaço e o cuidado, respondia: “Deixa essa menina quieta… ela é atulemada!”.

Já estudante, Alba aproveitava as brechas do tempo para ensaiar outros destinos disruptivos. Enquanto as “patroas” abusavam das horas e “escravizavam” as lavadeiras, constrangendo-as a realizar, gratuitamente, tarefas que não lhes cabiam, Alba pedia licença e se recolhia às bibliotecas das casas onde havia livros de poesia. Ali permanecia, a memorizar versos. Sobre esse tempo, diria mais tarde: “Foi a poesia que me salvou, porque a gente era criada ou para ser empregada doméstica ou para ser prostituta”.

Começou a frequentar a escola aos sete anos. Era muito querida pelas professoras, sobretudo pelas de Arte. Hoje, no entanto, compreende que aquele “carinho” não correspondia ao amor que imaginava na infância. As professoras a consideravam inteligente e a incentivavam a não andar com pessoas pretas. Assim, Alba afastava-se das irmãs e das vizinhas para carregar as pastas e cadernetas das professoras nos intervalos; na saída, precisava esperar que todos fossem embora para, só então, voltar para casa sozinha, apartada do povo preto.

Por seus exercícios teatrais e por sua paixão pela leitura e poesia, destacou-se na escola. Mas que criança, neste mundo, rouba livros de poesia? Alba roubou. Desde cedo, apaixonou-se pelo verbo, tomada por um delírio que a palavra lhe insuflava, entranhando pelas vísceras e desaguando na fonte do seu ser. Certa vez, pediu emprestado um livro de poesia ao filho da “patroa”; ele o entregou, e Alba fugiu com o livro, sem jamais devolvê-lo.

Na escola, uma das professoras que perceberam sua paixão pela leitura a fazia memorizar poemas para utilizá-los nas apresentações. Com a prática constante, Alba adquiriu grande facilidade para decorar textos. “No dia da apresentação, eu ficava atrás, recitando, enquanto as pessoas de cor clara, à frente, faziam mímica. E eu dizia todo o texto. Digamos que havia dez pessoas, e eu ficava atrás, escondida”. Ao final, quando esperava os aplausos, a professora a puxava para trás. Numa dessas ocasiões, na Igreja Santa Rita, os aplausos foram dirigidos às meninas de cor clara. Isso se repetiu muitas vezes, até que Alba despertasse, percebendo que havia algo de profundamente errado.

Alba sonhava em ser a Rainha do Milho. Recebia da professora os talões da festa para vender e se destacava como excelente vendedora. Esgotava todos os bilhetes, superando as colegas. No entanto, quando chegava o momento da premiação por sua dedicação, a escolhida era sempre uma menina “branquinha, de cabelo liso, pintado de loiro”.

No terceiro ano em que participou da festa, mais uma vez tendo vendido todos os talões, Alba disse que “roubou” o dinheiro arrecadado. Ou, quem sabe, tenha apenas reparado, financeiramente, uma fração ínfima, quase nada, dos danos acumulados pelos abusos e pelos maus-tratos racistas que atravessaram sua infância.

Justiça é algo sagrado? Quem controla o acesso ao divino? A água, sabe-se, sempre encontra caminho. Nossa atriz segue sua saga e, aos onze anos, após a separação da mãe do companheiro, homem que bebia em excesso e a maltratava com palavras duras, conhece a fome. Faltava comida em casa; sendo a mais velha, cabia-lhe permanecer ali, cuidando dos irmãos. Soube, então, que haveria uma missa católica na escola e, depois de três dias sem comer, acreditou que, ao ingerir o corpo de Cristo, saciaria a própria fome. Colocou-se na fila para receber a hóstia.

Em muitas igrejas e celebrações, reproduziam-se práticas de segregação. Para as pessoas negras, a hóstia era entregue nas mãos; às pessoas brancas, colocada diretamente na boca pelas mãos do sacerdote. Alba recebeu-a nas mãos e, já com a hóstia entre os lábios, foi interpelada por uma beata se era batizada. Ao responder que não, sentiu o dedo da mulher invadir sua garganta com violência, retirando a hóstia e lançando-a fora. Tratava-se de um gesto atravessado por racismo e classismo — pois tal violência não recaía sobre não negros ou sobre os mais abastados —, seguido de reprimenda pela “ousadia” diante do “corpo de Cristo”. Alba chorou ao ser julgada indigna. Uma violência simbólica que buscou interditar o acesso ao divino. Mas o mundo dá voltas, camará...

Alba cresce. Integra o grupo jovem na Igreja Santa Rita, onde conhece Jailton Alves. É a partir das apresentações na igreja que, vista pelo amigo Jairo, recebe o convite para buscar a profissionalização, sendo apresentada a Aldo Bastos. Nesse percurso, porém, atravessa uma tragédia familiar. Sua irmã, de onze anos, e seu irmão, de vinte e quatro, morrem em uma enchente do Rio Cachoeira. Estavam nas proximidades da Fazenda Progresso quando, em meio a uma brincadeira, um amigo jogou sua irmã, que não sabia nadar, no rio. Ao tentar salvá-la, o irmão também se afogou.

Entre perdas e ausências, o corpo aprende a respirar de outro modo. Sob as luzes da ribalta, a atriz em formação mergulha em águas mais profundas com o teatro. Alba ingressa no grupo de Aldo Bastos como figurante, em uma performance cuja atriz principal era Leila Chalhoub. Com o adoecimento de Leila e sua consequente saída da peça, Alba é submetida a teste e assume o papel principal no texto infantil A Bruxinha que Era Boa, de Maria Clara Machado. Imersa no universo teatral, e já conhecendo Carlos Betão (que viria a ser o pai de sua filha, Iajima), aproxima-se também de José Delmo, Jackson Costa, Eva Lima, Ramon Vane e Gal Macuco. Com essa trupe, passa a fazer teatro de rua no Grupo de Arte Macuco.

Ingressa, ainda, em outro coletivo, o Em Cena, que recebe a presença do “rei” Mário Gusmão. Figura central nas articulações culturais do sul da Bahia, Mário Gusmão esteve nas raízes de criações como o Bloco Afro Dilazenze e o Axé Odara, além de inúmeras iniciativas de valorização e afirmação da negritude no litoral sul. Segundo Alba, suas apresentações frequentemente reuniam mais de cem, por vezes cento e cinquenta pessoas em cena.

É também Mário Gusmão quem, em Itabuna, lidera o grupo Em Cena, que ora se apresentava com artistas de diferentes coletivos, ora, a depender do porte do espetáculo, atuava com o núcleo central que constitui a identidade do grupo; do qual Alba fazia parte. “Até então, eu não me assumia como mulher negra. Não assumia meu cabelo. Usava lenço, tinha até marca, porque a gente é criada para não assumir a nossa cor, o nosso cabelo. E Mário Gusmão veio e disse: ‘Não! Você tem que assumir o seu cabelo!’”.

Num gesto libertário, Ieda, amiga de Alba, moradora do Banco Raso, tira o lenço de sua cabeça, conduzindo-a ao banheiro, onde corta seus cabelos e os deixa em estilo black. Alba torna-se, então, a primeira mulher a assumir o black na cidade de Itabuna. Ao assumir o cabelo, assume também as vestes, passando a usar roupas afro e a afirmar, no corpo, a sua identidade.

Enfrentando as provações inscritas nos olhares, nas falas e nas mangações, Alba torna-se agente multiplicadora da afirmação negra e da autoestima, passando a influenciar outras garotas na cidade e na região. Nesse ínterim, já com o cabelo crescido, torna-se também a primeira mulher a assumir os dreads, o visual rasta, em Itabuna, estilo que modela a partir de uma viagem a Salvador.

Como vimos, Alba maturou sua identidade gradativamente. Matutava, e seu corpo, a um só tempo, refletia manifestos, como lâminas amoladas sob o olhar de mestres como Mário Gusmão, o “grande bruxo” que a instigou a abandonar os lenços que ocultavam sua natureza crespa. Numa Itabuna de povo oprimido, majoritariamente negro, mestiço, afro-indígena, atravessada por valores conservadores que o mantinham acabrunhado, Alba causava estranhamento ao desfilar, pioneira, seus dreads, seu black, em vestes de moda afro. Por isso, enfrentava, sempre com altivez, o escárnio das ruas; vindo, inclusive, de quem sequer se reconhecia adoecido pela negação de sua ancestralidade viva.

No período entre 1983 e 1988, durante a gestão de Ubaldo Dantas, Mário Gusmão chega a Itabuna, a convite do governo municipal. À época, a cidade contava com uma Diretoria de Cultura vinculada à Secretaria de Educação, dirigida pela professora Norma Vídero. É nesse contexto que, em articulação com a Fundação Cultural do Estado da Bahia, a atriz e diretora Jurema Penna leva à cidade o projeto Chapéu de Palha. A partir de uma pesquisa sobre a história local, nasce o espetáculo Itabuna Alves do Amor Divino, reunindo mais de cento e cinquenta atores da região, com dança, coreografia e encenação na Praça Adami. Alba participa dessa grande empreitada.

Impulsionado por essa efervescência, Ramon Vane idealiza o projeto Jacacau, acolhido pela Diretoria de Cultura. A proposta consistia em pesquisar os bairros da cidade e transformar suas histórias em teatro. Alba, Carlos Betão e Jackson Costa percorrem as periferias, escutando os mais velhos, recolhendo memórias que, depois, ganhariam corpo nas cenas; devolvendo ao povo a consciência de sua própria história.

Nesse período, grande parte dos trabalhos artísticos remunerados dependia do poder público. As escolas particulares não absorviam esses profissionais, e a prefeitura se tornava, muitas vezes, a única fonte de trabalho. Por meio da Fundação Marimbeta, Alba e Carlos Betão são convidados a dirigir aulas de teatro. nas escolas do “Sítio do Menor Trabalhador”. Ali, a formação era múltipla. Além do teatro, havia capoeira, conduzida por mestres como Badogue e Pão de Milho, dança, corte e costura, artesanato. Muitos dos capoeiristas formados nesse contexto hoje se encontram espalhados pelo mundo, frutos diretos dessa experiência.

As escolas funcionavam em zonas rurais, articulando o tempo de estudo com o plantio e a colheita. Parte da produção era levada para casa, e o excedente, comercializado. Ainda assim, apesar da potência do trabalho, Alba recorda as dificuldades. O secretário de finanças, alheio ao valor da arte, atrasava frequentemente os salários, obrigando-a, por vezes, a reviver a experiência da fome.

Durante o governo de Ubaldo Dantas, havia uma intensa efervescência artístico-cultural. Alba relembra, com entusiasmo, a qualidade dos projetos de formação, como as oficinas conduzidas por artistas do Circo Voador, que reuniram mais de duzentas pessoas na Vila Olímpica. Havia feiras de livros, apresentações teatrais nos bairros, rodas de leitura com crianças. Um cenário vivo, agregador, pulsante.

É nesse mesmo período que se intensificam os embates políticos no campo da cultura. Alba recorda sua atuação na disputa pela direção do Centro de Cultura Adonias Filho. Para ela, a cultura não poderia ser reduzida a um anexo administrativo, nem conduzida por quem desconhecesse a pulsação das ruas. Sabendo da preferência do prefeito por Cyro de Matos, cuja obra respeitava, mas cuja atuação julgava distante da cultura viva da cidade, Alba levanta uma campanha de resistência. Arriscando o próprio sustento, defende que o espaço seja ocupado por alguém enraizado no fazer artístico. Ao fim, Ruy Póvoas assume a direção do centro.

No calor dessa disputa, ela lembra do episódio em que Ubaldo Dantas a questiona: “Você sabe que eu é que pago o seu salário, não é?”. Alba responde sem hesitar que sabia, mas sabia, sobretudo, de seus valores e de suas convicções.

Nesse tempo, Mário Gusmão insistia que Alba precisava buscar sua ancestralidade; não poderia permanecer restrita ao meio artístico. Já então, Alba conhecia o professor Ruy Póvoas como poeta, tivera contato com sua obra por intermédio de Fadory, colega de turma no IMEAM. A efervescência cultural da cidade a impulsionava. Ladeada por poetas, atrizes e músicos, entre eles o grupo Energia Azul, Alba declamava seus versos em bares e espaços de encontro. Frequentava o “Gaiola Aberta”, de Geny Xavier e do músico Nonato Teles, e o “Esquina Três”, de Vilma. Lugares onde, nos fins de semana, artistas se reuniam para recitar, cantar e encenar.

Foi em uma dessas noites que Alba apresentou a poesia de Ruy a Mário Gusmão. A partir daí, o próprio Ruy passa a frequentar esses espaços, declamando seus poemas e estreitando laços com Mário. Laços que se aprofundariam no Ilê Axé Ijexá Orixá Olufon, onde Ruy, também babalorixá, passa a cuidar de Mário.

Em meio a esse encontro de caminhos, Ruy pergunta a Alba se ela tem cuidado de seu axé. Intrigada, e sabendo de sua condição de babalorixá, ela lhe pede explicações. E, pouco depois, recebe o convite para uma festa no terreiro. Sem dinheiro, morando longe do bairro Santa Inês, onde se localiza o Ilê, quase desiste. Ainda assim, sai caminhando pelas ruas; de súbito, encontra cinco reais, o bastante para a passagem. Chega quando estava acontecendo o ebô de Oxalá.

Ao receber o alimento ritual, é advertida por estar de salto. Era preciso tocar o chão com os pés descalços. Num primeiro instante, a repreensão lhe acende a revolta, memória viva do dia em que lhe arrancaram a hóstia da boca. Mas, ali, algo se desloca. Ela percebe a diferença. Não havia perguntas sobre sobrenomes, linhagens ou batismos coloniais; havia partilha. Pedia-se apenas o gesto de enraizar-se, de tocar a terra. E, nesse gesto, Alba se reconhece em casa. Permanece. Nunca mais sairia daquele espaço.

Era esse o lugar que buscava. Onde sua estética, seu cabelo, sua história de filha de lavadeira fossem acolhidos; onde o pertencimento, negado por religiões de matriz colonial, pudesse florescer. Sob a condução de Ruy Póvoas, a quem já admirava como intelectual e poeta, inicia sua caminhada espiritual, compreendendo que o candomblé não é apenas religião, mas filosofia de vida e estratégia de sobrevivência.

Se, até então, Alba havia encontrado no terreiro um chão onde fincar os pés e reconhecer-se inteira, é desse mesmo enraizamento que sua trajetória se expande: da espiritualidade para a educação, da cena para a partilha do saber. Depois de muitas peças, convites e incursões pelo cinema, ainda no contexto de efervescência político-cultural do governo de Ubaldo Dantas, Alba conhece Yasmine Habib. Ao entrar em contato com seu trabalho, Yasmine reconhece, para além da artista, uma intelectual forjada na experiência, e a convida para lecionar na Universidade Estadual de Santa Cruz. Da margem ao espaço acadêmico, Alba não abdica de sua origem, mas, ao contrário, faz dela fundamento em sua atuação.

Na universidade, Alba atua em programas como o Alfabetização Solidária e o Pró-Ação, levando suas práticas a mais de trinta e cinco municípios. Sua presença, no entanto, não se dá sem tensão. Ao adentrar os corredores acadêmicos, enfrenta resistências de professores que desconhecem e deslegitimam os saberes populares. Ainda assim, sustenta sua prática, demonstrando que o conhecimento que carrega no corpo, tecido na vivência com comunidades, possui densidade antropológica, pedagógica e política.

A relação entre Alba e Yasmine torna-se, assim, um marco de reconhecimento intelectual e de ruptura das bolhas de privilégio acadêmico na região. Foi Yasmine quem abriu as portas institucionais; foi Alba quem as atravessou, levando consigo o teatro. como ferramenta de alfabetização, consciência crítica e mobilização social. Em suas aulas, a cena era método para questionamento e proposição de outros mundos possíveis.

Sua formação, nesse sentido, é uma colcha de retalhos, costurada entre os palcos de Itabuna, as experiências na Fundação Marimbeta e o trabalho com jovens do Sítio do Menor Trabalhador. Mais do que ensinar teatro, Alba fazia da arte um instrumento de escuta e de voz. Primeiro, para si, rompendo os silêncios da infância; depois, para seus alunos, em múltiplos territórios. Essa trajetória como arte-educadora não apenas ampliou seu campo de atuação, mas também a preparou para a liderança que o Axé lhe exigiria. Uma liderança ancorada na escuta, na disciplina do corpo e na transmissão oral do conhecimento. Onde ensinar é, antes de tudo, partilhar vida.

Entre palcos, encruzilhadas e travessias, a trajetória de Alba se expande. Sua presença ganha novos contornos, projetando-se para além das margens do sul da Bahia. Atuando com o grupo Em Cena, em meio ao fervor da redemocratização do país, Alba segue para Brasília ao lado de Mark Wilson, Carlos Betão e Jackson Costa, para participar do FLAAC (Festival Latino-Americano de Arte e Cultura). Vestia um vestido vindo do Senegal, presente que carregava em si uma geografia ancestral. No estádio lotado, com cerca de cinco mil pessoas de diferentes partes do mundo, preparava-se um show de reggae quando, do alto do palco, a produção avistou aquela que destoava. A única mulher negra trajada em signos de África.

A produtora desceu, atravessou a multidão e, reconhecendo em Alba uma presença singular, convidou-a a subir ao palco. Alba sobe e leva consigo seus conterrâneos. Em um gesto improvisado, combina com o capoeirista, também baiano e irmanado em sua confabulação artística, que recitaria um poema enquanto o berimbau soasse. Ali, diante do mundo, Alba recita “Sou negra!”. No dia seguinte, seu nome já ecoava como um dos destaques do festival.

Ainda assim, o reconhecimento não apagava as dificuldades materiais. Entre trabalhos escassos e pagamentos atrasados, Alba seguia atravessada pela precariedade. Mas a fome, mais uma vez, não a derrubou. Decide, então, partir para o Rio de Janeiro, enquanto Carlos Betão, seu companheiro, permanece em Itabuna. Na capital fluminense, trabalha como empregada doméstica para, nas brechas do tempo, frequentar oficinas de teatro. Ela persistia, queria lapidar-se como atriz.

Entretanto, encontra um circuito fechado, ainda mais para mulheres negras. Percebe que, ali, era preciso mais do que talento. Era necessário pertencer, infiltrar-se, adequar-se a papéis restritos, quase sempre silenciosos. Figuras que entram mudas e saem caladas. Diante disso, compreende os limites daquele território e retorna.

De volta a Itabuna, a convite de Ritinha Dantas, então secretária no governo de Geraldo Simões (1992–1996), Alba retoma seu trabalho de formação junto ao poder público municipal. Nesse período, costura múltiplas dimensões da vida. As obrigações no terreiro, a maternidade — com o nascimento de sua filha, Iajima — e os convites que seguem surgindo para teatro, cinema e televisão.

Elson Rosário, a quem Alba reconhece como seu empresário, pela constante mediação de oportunidades. Em seu primeiro trabalho no cinema, inicialmente indicada para figuração, reage com desinteresse, não queria ocupar esse lugar. Ainda assim, é chamada. O diretor era Manoel de Oliveira, referência maior do cinema mundial, que filmava Palavra e Utopia, sobre o padre Antônio Vieira, interpretado por Lima Duarte.

Nos bastidores, ao tomar conhecimento de uma conversa entre Alba e Elson, o diretor, conhecido por não receber visitas, solicita a presença da atriz. O encontro muda o rumo da experiência. Manoel de Oliveira a convoca para dirigir uma cena com cento e cinquenta atores negros, filmada em Castro Alves-BA. Sem experiência prévia na direção e cercada por equipamentos que sequer conhecia, sob o olhar desconfiado da equipe técnica, Alba se vê diante do desafio. É então que se ancora em sua força — “na flecha certeira de Oxóssi” — e conduz a cena. Atua, dirige e encerra a gravação com um grande samba de roda. O resultado? Êxito pleno, afirmação de uma presença que, mais uma vez, recusa os limites impostos e reinscreve seu lugar na história.

Do chão do terreiro, onde Alba fincou seus pés e se reconheceu em casa, outra travessia de condução e destino se anunciava. Já iniciada no axé, Alba recebe um recado de seu orixá, transmitido por Ajilodá (professora Cida). No dia em que assumisse o cuidado de seus filhos de santo, conheceria lugares do mundo que sequer imaginava. Depois de tantas provações, aceita o chamado. E, a partir daí, já como Mãe Darabi, não mais interrompe o movimento. Sua vida passa a se desdobrar em caminhos que atravessam fronteiras.

Ela mesma reconhece que, muitas vezes, foi a fome quem guiou seus passos, e que assim também começaram as viagens anunciadas pelo orixá. Em um desses momentos de escassez, ouviu um aviso: era preciso sair à rua. Ao fazê-lo, encontra Janira França, que lhe fala de uma oportunidade na Escola Agrícola Margarida Alves. Alba envia o currículo, é aprovada e passa a lecionar teatro. Concluído esse ciclo, afasta-se da escola, mas o encontro com Janira ainda renderia novos desdobramentos.

Pouco tempo depois, surge o convite para levar um trabalho à Itália e à Áustria. Janira, sem domínio da linguagem teatral, convida Alba para a direção. Diante da barreira da língua, Alba reorganiza a proposta. Em vez de uma peça convencional, decide levar o que pulsa para além das palavras, escolhendo o samba de roda, a capoeira e as danças de orixá. É assim que começa sua travessia pelos aeroportos do mundo, transformando cultura em linguagem universal.

Cumpria-se, então, a palavra do orixá. Hamburgo, Berlim, Frankfurt, Londres, Lisboa, Munique, cidades da Itália, Albufeira... São muitos os destinos que passam a compor sua jornada. Nesses territórios, Alba, além das apresentações, leva cuidado. Atua junto a mulheres refugiadas e imigrantes, muitas delas brasileiras, atravessadas por violências diversas. Ali, exerce o axé como prática de acolhimento, cura e reconstrução de si.

Ao caminhar pelo mundo, é reconhecida não apenas pelos papéis que desempenhou, mas pelas vidas que tocou. Sua presença, firme e sensível, faz da arte, uma ferramenta de consciência histórica e política, capaz de romper máscaras opressoras e de curar feridas profundas. Há, em sua trajetória, uma pedagogia do corpo e da experiência, onde a malungagem se torna força de reinvenção coletiva.

A passagem de filha de santo a ialorixá marca o ápice de sua maturação. Tornar-se mãe de santo foi, para Mãe Darabi, a confirmação de que sua vida se tornou instrumento de algo maior. Como líder espiritual, sua atuação transborda os limites do barracão, compreendendo que lhe cabe transmitir saberes que o sistema colonial tentou apagar.

Tendo a oralidade como documento sagrado, faz de sua voz um arquivo vivo do povo preto, e da ancestralidade, bússola para orientar caminhos. Não deseja formar apenas artistas ou filhos de santo, mas cidadãos conscientes, pessoas capazes de experimentar a plenitude da vida em conexão com a natureza mais profunda. Sua condução é marcada pela insistência e pela sobrevivência, princípios que ensinam a olhar para a história, a honrar os que vieram antes e a construir, no presente, possibilidades de vida digna.

Como um rio que recolhe afluentes diversos e, ao avançar, se torna mais largo e profundo, Alba reúne em si as muitas margens que atravessou como atriz, educadora, poeta, mãe e ialorixá. Fazendo de sua vida um curso contínuo de resistência e criação.

No cinema, recorda com força as produções que a levaram a telas internacionais, onde sua imagem de mulher retinta, forjada no interior da Bahia, desafiou os dispositivos de apagamento. A imagem, para Alba, torna-se espelho e devolve ao mundo a dignidade que a “menina atulemada” de Itabuna sempre soube possuir. Um dos marcos dessa trajetória cênica foi sua participação na novela Velho Chico, da Rede Globo.

Essa presença adquire contornos quase poéticos quando vista à luz de sua história. A mesma mulher que, na infância, teve a hóstia arrancada da boca, retorna, anos depois, já como ialorixá e atriz reconhecida, para interpretar uma freira. Ao vestir o hábito diante das câmeras, Alba não apenas atuava. Era o tempo em movimento, curando e devolvendo sentidos. Ocupava, agora, o lugar daquela que um dia a excluíra, mas o fazia com a generosidade de quem já não precisa da validação externa. Tornara-se, ela própria, fonte de axé, corpo sagrado em si.

Hoje, Mãe Darabi reconhece que, muitas vezes, é mais celebrada fora de sua região do que em seu próprio território. Ainda assim, nunca se desconectou de sua origem. Dos palcos aos terreiros, das salas de aula às telas de cinema, inclusive sob direção de mestres europeus, carrega consigo o chão da periferia. O que a realiza, mais do que os aplausos institucionais, são os encontros. Como no episódio em que um homem negro a reconhece em um aeroporto e, em lágrimas, agradece por ter sua vida transformada por ela, apresentando-a à família como responsável por sua vitória. É também na permanência que Alba encontra medida de êxito. Sabe dos muitos que não resistiram às violências religiosas, políticas e artísticas. Por isso, seguir é, em si, um triunfo.

Sua trajetória é marcada por distinções de sua tríplice face: a artista, a educadora e a líder religiosa. Recebeu prêmios de prefeituras, câmaras de vereadores, universidades, além de títulos no teatro, no cinema e por sua atuação social, como o Troféu Mãe Ilza Mukalê. Ainda assim, ao ser perguntada sobre seu maior prêmio, responde sem hesitar: “Meu maior prêmio é Iajima”.

Entre seus trabalhos de maior alcance, destaca-se a série No Caminho dos Orixás, na qual atuou como diretora e articuladora da equipe, sendo premiada pelo júri popular. Nesse projeto, Alba exerceu uma curadoria sensível e rigorosa, levando cosmologias africanas ao grande público e tratando o candomblé com a dignidade e a beleza que lhe são próprias. A obra sintetiza suas dimensões de artista e educadora, utilizando a linguagem audiovisual como ferramenta de enfrentamento ao racismo e à intolerância religiosa.

O magistério, aliás, ocupa lugar central em sua caminhada, destacando-a por seu trabalho com a arte-educação de jovens em situação de vulnerabilidade social. Seja no terreiro, nas oficinas de teatro ou nos muitos municípios em que atuou, Alba compreende a educação como prática de liberdade. Para ela, quando um jovem negro aprende a história de sua ancestralidade, deixa de ser alvo passivo do sistema e se torna protagonista de sua própria narrativa.

Sua família se amplia para além dos laços de sangue. São muitos os sobrinhos na consanguinidade e incontáveis os filhos, filhas, irmãs e irmãos no axé. Forjada desde a infância como um ser de acolhimento, carrega a memória das dificuldades como medida de sua travessia. Depois de tudo, o que deseja é simples e, ao mesmo tempo, grandioso: ser feliz.

Entre suas maiores conquistas, destaca com orgulho o percurso de sua filha, Iajima, na universidade pública. Vê-la crescer e se formar é, para Alba, como testemunhar a continuidade de uma força antiga, a mesma que reconhece em sua mãe, mulher que criou tantos filhos e filhas com coragem. Ao olhar para trás, compreende que se sua mãe sustentou o mundo com as próprias mãos, ela também herdou essa força. Foi essa herança que entregou à filha desde a gestação.

Essa herança desvela uma história apoteótica, da qual Alba faz parte e testemunha as águas que correm com as novas gerações. É o que sente ao ver a filha tornar-se uma jovem livre, educada, soberana. Iajima, com sua graça, seu axé e sua presença luminosa, amplia em Alba a sensação de que a vida soube lhe reservar beleza. Assim, seu coração se aquieta em alegria, ao reconhecer, na descendência que floresce, a prova de que o rio seguiu, e que suas águas, agora, correm mais livres, mais conscientes de sua origem e de sua potência.

Por fim, Alba deixa um chamado, quase um pedido de socorro. Convoca os jovens a não abandonarem seus desejos, a sustentarem os sonhos com responsabilidade e coragem. Insiste na importância de conhecer trajetórias como a de Mário Gusmão, de reconhecer na ancestralidade uma força de futuro. Fala do cuidado com as mulheres, com os idosos, com as crianças; do respeito às diferenças. Pede que nos eduquemos pelo teatro, pela dança, pela poesia; linguagens onde o corpo aprende a dizer o que a história tentou calar. E lembra que todos carregamos dons, sendo perigoso abandoná-los para seguir caminhos que negam a vida.

Hoje, Mãe Alba Darabi segue em movimento, como água que não estanca. Dedica-se à segunda edição de seu livro A força das folhas: banhos de axé, obra que, apresentada na Bienal de Frankfurt, atravessou fronteiras e esgotou sua primeira tiragem. Palavra que cura, folha que ensina, gesto que partilha.

Ora, Yê Yê Ô! Porque, no fundo, sempre foi sobre o omi que nos constitui e nos devolve à origem. Como rio que conhece suas nascentes e, ainda assim, se lança ao mundo, Alba fez de sua vida correnteza. Enfrentou pedras, desviou de barragens, abriu caminhos onde parecia não haver passagem. E, ao fazê-lo, tornou-se também fonte, lugar onde outras vidas bebem, se reconhecem, se fortalecem.

Filha das águas, filha de Oxum, Mãe Darabi é, ela própria, rio em estado de memória e de futuro. Em seu curso, cabem a dor e a festa, a fome e o banquete, o silêncio e a palavra. Tudo transmutado em axé.

"Ninguém nunca conseguiu tirar minha autoestima. A pessoa pode me trair ou ser perversa, mas eu tenho uma força dentro de mim que neutraliza: eu não nasci para sofrer, agora eu quero é ser feliz."