Cacique Valdelice

Enraizar-se é uma arte antiga das formas vegetais. Pelas raízes, árvores e plantas se tocam no invisível, comunicam-se na umidade da terra, sentem-se umas às outras e tecem, em silêncio, a vasta rede que sustenta a vida. É desse emaranhado cúmplice que Valdelice Tupinambá desponta, ligada, desde sempre, ao corpo coletivo de seu povo.

Nascida em Olivença, em 1962, terra-mãe onde também germinaram seus pais, Valdelice é raiz, tronco e árvore em contínuo crescimento, fincada entre o sal do mar e a respiração viva da Mata Atlântica. Na infância, lutando pela sobrevivência ao vender coco na praia, suas raízes se aprofundam. No chão das marés e no convívio com os seus, aprende a escutar os movimentos subterrâneos do levante, nutrindo-se das forças ancestrais que a cercam. Assim, cresce entrelaçada aos parentes, até tornar-se, ela própria, eixo e seiva desse grande movimento coletivo de fortalecimento da identidade Tupinambá.

Ao reconhecer em si a potência da resistência, Valdelice se constitui como guardiã das tramas que sustentam a vida local, a fauna, a flora e os modos de existir. Sua palavra, como raiz fecunda no tempo, nos conduz a antes da colonização, ao gesto primeiro de plantio desse jardim ancestral que hoje chamamos Mata Atlântica; atravessa o período colonial, enfrenta as durezas do coronelismo e nos convoca a reinventar nossas formas de organização, para que possamos, em coro, fazer vibrar a nossa natureza mais profunda.

Pedindo licença aos Ancestrais — especialmente a Amotara, sua mãe, de quem herda a missão de vida e a luta comunitária —, Valdelice enuncia sua existência. No princípio, era o som do maracá, instrumento sagrado ancestral, elo entre o mundo material e o imaterial. E o som do maracá estava com a Cacica Val. E o som do maracá era Valdelice Tupinambá.

Sua voz, então, entoa. Encorpa o espaço e esgarça sentidos numa cantiga que é, ao mesmo tempo, oração e escudo:

“Eu vi gemer na mata, aê
Eu vi gemer na mata, lá
Tupinambá, índio guerreiro que Tupã deixou na terra
Para lutar pelo ideal e também vencer o mal
Eu estou na minha aldeia, aldeia que nos pertence
Oh, viva nosso pai Tupã, que ele ama muito a gente”.

Awêry! Neta de Nonato Amaral e filha de Gerson de Jesus, é com gratidão à ancestralidade que a Cacica Valdelice Tupinambá inicia seu relato. Não cumpre o ritual por automatismo; ao contrário, move-se por uma conexão profunda com os Encantados. Assim, compreende seu cacicado como extensão de uma grande árvore frondosa, que abriga os que já estiveram, os que estão e os que virão: os Tupinambá, em simbiose com a natureza, sob a força de Tupã, num território que os impulsiona a existir rumo a um futuro luminoso.

Desse lugar de enraizamento e projeção, sua palavra se ergue firme, direta e convocatória. Ao rememorar encontros e lutas, Valdelice dilata o tempo, reinscrevendo a história em outras direções:

“[...] eu disse ao presidente Lula que a gente tem que criar uma nova história nesse Brasil. Uns 500 anos à frente. A gente tem que fazer contar outra história dos 500 anos. Que esses 500 foi um massacre. Mas que esse que vem aí, seja 500 de histórias boas. História do povo. Porque antes falava que a gente não existia, hoje a gente existe. Então, vai deixar passar?”.

Seu canto encarna a identidade, a força e a história de um povo que reivindica a materialidade de sua presença Tupinambá. Trata-se de uma luta por direitos básicos e pelo devido suporte governamental. Não apenas para sobreviver, mas para viver plenamente com terra, dignidade e reconhecimento. Por séculos, esse povo foi alvo de apagamentos, reduzido à designação de “caboclos” e dado como dizimado.

Contrária a essas narrativas de apagamento, a voz de Cacica Val se insurge, trazendo à superfície as memórias soterradas da violência colonial:

“O povo tratava todo mundo como caboclo de Olivença, não como indígena. [...] tivemos o massacre de 1559. Foi o massacre do Cururupe. [...] Nove quilômetros de corpo de índio. O Cururupe, o mar de sangue, né? Ficou vermelho do sangue do povo. Então, você imagine... [...] Mem de Sá, depois do Cururupe, andou nas aldeias e tocou fogo em todas as aldeias. Acabou tudo. Ele conta como glória, né? E nós contamos como um extermínio, né? Tentou exterminar. E depois vai ainda nos livros [01] [02] [03] e diz que o Tupinambá não existe. [...] E os livros, quem escreveu os livros não fomos nós. Mas quem escreveu lá disse que não existia mais. [...] esqueceu que esse povo, que essa planta tem uma raiz. Essas raízes podem levar tempo pra ela brotar. E nós ficamos três séculos sem dizer quem nós éramos. O Tronco dos Amaral e o Segredo da Bisavó Centenária”.

A genealogia de Valdelice está entranhada no solo de Olivença por meio do “Tronco do Amaral”, linhagem viva de resistência. Esse enraizamento se manifesta tanto no parentesco entre seus pais, primos que compartilhavam o mesmo sobrenome, quanto no histórico familiar de enfrentamento ao apagamento. No centro dessa memória, ergue-se a figura de sua bisavó, matriarca do povo Tupinambá em Olivença, que viveu até 1975, alcançando os 105 anos de idade.

Sua vida foi marcada pelo período sombrio em que coronéis do cacau proibiam os indígenas de construir casas de barro e palha, numa tentativa de “civilizar” Olivença à força. Tal violência resultou na expulsão de diversas famílias que, sem recursos para erguer casas de tijolo e telha, foram empurradas para fora de seu próprio território.

Valdelice rememora esse episódio como quem reabre um tempo vivo, deixando que a voz ancestral atravesse sua própria fala:

“E aí ela chamou os parentes em segredo: ‘quem for no rio, traz o barro; quem for na mata, traz a vara. Nós vamos fazer outra casa’. [...] Quando deu um vento que derrubou a velha, aí a nova apareceu, eles foram para cima dela e falaram assim: ‘e aí? Nós não falamos que você não fizesse casa aqui na praça de Olivença?! Você não podia ter casa de palha e barro!’. Aí ela respondeu: ‘aqui é meu, só saio daqui para o cemitério’. Foi muito perseguida, sabe? Porque ela foi resistente ali. Os outros saíram, muitos que moravam nas casinhas de palha, sem condições, deixaram Olivença. Alguns foram adentrar as matas, outros seguiram para a cidade. E ela não. Ela fez essa resistência. Então, eu acabo dizendo que ela foi a resistência do povo”.

Sua bisavó resistiu com firmeza, mas também com a resiliência dos gestos cotidianos. Colhia marcela no Campo de São Pedro, fabricava travesseiros e os trocava por sustento, mantendo de pé a dignidade de sua família no silêncio das noites de Olivença. De sua bisavó, Valdelice herda a consciência de que a terra tem dono, que o pertencimento não se negocia e que ser Tupinambá é garantir que a semente da identidade permaneça viva; atravessando gerações, como chegou até ela e sua mãe, Amotara, e como seguirá no tempo que ainda virá.

Dona Nivalda, que, no sagrado, assumiu o nome Amotara, é descrita por Valdelice como a guardiã da “memória de sangue” do povo Tupinambá. Em suas palavras, Amotara não foi apenas mãe, mas ponte entre a invisibilidade forçada e o reconhecimento nacional. Foi ela quem, ao visitar o Parque Ibirapuera durante a Mostra do Redescobrimento, reconheceu o Manto Tupinambá. Não como peça de artesanato, mas como uma divindade, um ancestral que “chorava” para voltar para casa.

Esse gesto de reconhecimento desloca o curso da história. A partir dele, o que era objeto torna-se corpo; o que era exposição transforma-se em chamado. Amotara, filha do “Tronco do Amaral”, viveu a dureza de sustentar essa herança. Foi prima de seu próprio marido, numa estratégia de preservação do vínculo familiar e territorial, para que a terra não se dispersasse nas mãos de estranhos. Em um tempo em que muitos ainda silenciavam sua identidade, foi ela quem ergueu a voz pela terra. Sua morte deposita em Valdelice a continuidade da missão: a repatriação do Manto [01] [02] [03] [04] [05] [06] [07] e a luta pela demarcação definitiva do território.

Entre mãe e filha, o vínculo se tece pelo Manto Tupinambá, como elo espiritual. A Cacica Val recorda, com emoção, que foi Amotara quem “plantou a semente” da repatriação. Feito de penas de guará e mantido na Dinamarca por 386 anos, o Manto torna-se presença que supera ausências. Ao narrar seu retorno ao Brasil(), [01] [02] [03] , Valdelice o compreende como a realização de um sonho que sua mãe não pôde ver em vida, mas que, como afirma, permanece “presente em cada pena”.

Assim, mãe e filha entendem o território de Olivença não apenas como chão de cultivo de cacau ou mandioca, mas como corpo da mãe-terra que precisa ser libertado. Valdelice defende que a luta pela terra, nesse sentido, é também uma luta pelo futuro. Para que as crianças Tupinambá não precisem mais “se esconder sob o barro”, como sua bisavó outrora fez, mas possam caminhar de rosto erguido, protegidas pelo manto da história que sua comunidade teceu; e continua, incessantemente, a tecer.

Valdelice Tupinambá personifica a transmutação do silêncio em voz política. Antes de carregar o peso do cocar, sua vida foi forjada na dureza do trabalho manual e no compromisso com a educação de comunidades historicamente invisibilizadas. Sua trajetória compõe-se como um mosaico de experiências que refletem a luta da mulher indígena brasileira. De criança que vendia cocos na praia de Olivença, durante o verão, torna-se professora que, à luz tremeluzente de um lampião, na Serra Negra, alfabetiza jovens e adultos, fazendo do conhecimento uma arma contra a exploração dos grandes latifundiários.

Para além das aldeias, Valdelice também enfrentou o asfalto das cidades. Foi vendedora de acarajé, operária de mercado, trabalhadora urbana. Essas vivências, entre o território ancestral e o espaço urbano, conferiram-lhe uma estatura ética e política capaz de compreender, a partir da própria experiência, as necessidades mais básicas de seu povo.

O ano de 1999 representa um divisor de águas para o povo Tupinambá de Olivença. À época, a pressão sobre o território era intensa, e o movimento indígena demandava uma liderança que mantivesse o “pé no chão” da aldeia, sem perder a habilidade de dialogar com o mundo exterior. É nesse contexto que Valdelice rememora a existência de vinte e três comunidades envolvidas no processo de reorganização coletiva.

Sua escolha, contudo, não nasce de uma ambição individual, mas de um consenso tecido entre essas comunidades. Valdelice é reconhecida como tronco capaz de sustentar a luta. Sua liderança emerge como árvore que oferece sombra e proteção às famílias Tupinambá, articulando a sabedoria dos mais velhos com a urgência dos direitos que o século XXI exigia.

Valdelice detalha que ser cacica é, acima de tudo, uma missão confiada pelos Encantados. Em sua fala, transparece que não se tornou liderança apenas por votação, mas por um reconhecimento de força espiritual. Aceitou o cargo consciente de que sua vida deixaria de pertencer somente a si, passando a se vincular à coletividade e às entidades que regem a natureza. Para ela, o cacicado é uma forma de obediência ao clamor dos antepassados expulsos de suas terras.

Ao se descrever como uma “árvore da natureza”, Valdelice afirma que sua coragem não nasce de si mesma, mas dos Encantados de Luz. “Se você me der força, coragem eu tenho”, diz ela, revelando, nessa síntese, o pacto que sustenta sua liderança. Aos Encantados cabe prover a energia e a proteção espiritual; a ela, a disposição para o enfrentamento físico e político.

Essa força se revela, sobretudo, nos períodos mais duros de sua trajetória. Valdelice descreve o tempo de prisão domiciliar não como derrota, mas como um “encantamento forçado”. Mesmo confinada às paredes de sua casa, sua voz continuava a percorrer as aldeias, sustentada pela rede de solidariedade indígena. Em sua leitura, o poder judiciário e as forças policiais atuaram, muitas vezes, como extensões dos interesses dos fazendeiros, promovendo reintegrações de posse violentas e tentando intimidar a comunidade. Ainda assim, cada processo judicial e cada noite de vigília nas retomadas fortaleceram a convicção de que a luta pela terra é inseparável da luta pela liberdade plena de seu povo. Assim, o espaço do tribunal transforma-se, em sua prática, em tribuna de denúncia, projetando para além das fronteiras nacionais a realidade do genocídio continuado dos povos originários.

A cacica conecta sua trajetória à memória de lideranças históricas, como o Caboclo Marcelino, grande mártir da resistência Tupinambá na década de 1930. Sua história, transmitida pelos mais velhos, entre eles, sua bisavó, integra aquilo que Valdelice chama de “história do povo”. Uma memória viva, que insiste em ser ensinada às novas gerações. Para ela, Marcelino é prova de que a identidade Tupinambá se forja no enfrentamento, e de que a possibilidade de se afirmar indígena foi conquistada ao custo da perseguição, do desaparecimento e da vida de muitos.

Na tradição Tupinambá que Valdelice encarna, Marcelino não morreu; encantou-se. Tornou-se força espiritual que habita as matas, protege o território e inspira os guerreiros do presente. Quando fala de seus “troncos” e de sua ancestralidade como fontes de força, é também essa presença que se manifesta. Pilar invisível que não se curvou, mesmo sob a mira das armas.

Ser cacica, em Olivença, é carregar o bastão de Marcelino. A própria Valdelice reconhece nessa continuidade um destino compartilhado. Assim como ele foi criminalizado por defender a terra, ela também enfrentou processos e prisões, revelando que, embora os métodos de opressão do Estado tenham se transformado, sua lógica permanece. Em contrapartida, a resistência do povo Tupinambá também persiste, renovada a cada geração. Para a Cacica Val, sempre que o povo dança o Toré ou ocupa uma terra, o “espírito de Marcelino” se faz presente, fortalecendo braços e vontades. Ele é, ao mesmo tempo, memória histórica e força espiritual. Uma prova de que o povo Tupinambá nunca se rendeu, mesmo quando a história oficial tentou decretar sua extinção.

É nesse espelhamento que Valdelice se reconhece. Marcelino torna-se, para ela, referência, impulso e presença que a acompanha tanto nos enfrentamentos institucionais, diante do Palácio do Planalto, quanto nas tensões concretas das reintegrações de posse. Nesses momentos, lembra-se de que o “Tronco do Amaral” e o povo de Olivença são inquebráveis, sustentados por aqueles que, como Marcelino, tornaram-se parte da própria terra.

Essa força se revela, sobretudo, nos períodos mais duros de sua trajetória. Valdelice descreve o tempo de prisão domiciliar não como derrota, mas como um “encantamento forçado”. Mesmo confinada às paredes de sua casa, sua voz continuava a percorrer as aldeias, sustentada pela rede de solidariedade indígena. Em sua leitura, o poder judiciário e as forças policiais atuaram, muitas vezes, como extensões dos interesses dos fazendeiros, promovendo reintegrações de posse violentas e tentando intimidar a comunidade. Ainda assim, cada processo judicial e cada noite de vigília nas retomadas fortaleceram a convicção de que a luta pela terra é inseparável da luta pela liberdade plena de seu povo. Assim, o espaço do tribunal transforma-se, em sua prática, em tribuna de denúncia, projetando para além das fronteiras nacionais a realidade do genocídio continuado dos povos originários.

Um dos momentos mais transcendentais da trajetória de Valdelice Tupinambá é sua luta pela repatriação do Manto Tupinambá, mantido na Dinamarca por quase quatro séculos como espólio do passado colonial. Para a Cacica, o manto, tecido, com penas de guará, jamais foi objeto inerte de vitrine, mas um “ancestral vivo”, que clamava pelo retorno ao calor de seu povo. Essa compreensão se ancora na memória de Amotara, sua mãe, que primeiro reconheceu, entre milhares de peças, a presença ancestral que ali se manifestava.

Ao rememorar esse reconhecimento, Valdelice reinscreve a origem da luta entre o político e o espiritual:

“Quando ela [Amotara] vai em 2000 [...] e reconhece, no meio de três mil peças, ela não reconheceu porque viu ou tocou, nada disso. Ela reconheceu a ancestralidade; foi ele que veio, levou ela. [...] Quando voltou, ainda construiu três mantos. Aí a ancestralidade disse pra ela: ‘não faça mais, você já fez sua parte’. [...] E ela fez esse trabalho, foi muito bom para o povo. [...] A gente é acostumado a esquecer da história. Às vezes, a gente esquece da nossa própria história”.

Eis a semente da missão que Valdelice assume. Sua primeira viagem ao Rio de Janeiro, para encontrar o Manto no Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, é marcada por recolhimento e reverência. Ao atravessar aquele espaço institucional, não vê apenas um artefato arqueológico, mas a concretização de uma promessa. Diante do Manto, estabelece-se um reconhecimento mútuo. A Cacica reafirma, inclusive perante especialistas, a autoridade de seu povo sobre aquilo que nunca deixou de lhes pertencer.

No segundo encontro, a experiência se transforma em gesto político. Se antes havia reconhecimento, agora há cobrança e anúncio. Valdelice utiliza a visibilidade do momento para dialogar com autoridades nacionais e reivindicar, no campo institucional, a urgência da devolução. O Manto, então, se torna agente, força que convoca, aproxima e tensiona o poder:

“É o manto que trabalhou. [...] Eu digo que ele é um ancião, o mais velho do Tupinambá; ele é um ancestral, ele é vivo. [...] Ele trouxe o presidente. E ainda digo mais: Amotara estava junto, porque a história começou com ela. [...] E lá no museu a gente conseguiu conversar. Ele perguntou como estava a questão da terra, e a gente contou... [...] E ele também falou que esse manto não pode ficar no Rio de Janeiro; tem que voltar para seu povo, porque o povo precisa dele. [...] Quando minha bisavó contava para minha mãe que o manto foi embora e a aldeia se despedaçou… ele retorna, fica no Brasil, mas ainda não está no seu território. Ele precisa vir agora para juntar”.

Por meio de articulações que alcançam instâncias nacionais e internacionais, Valdelice se firma como voz insistente na exigência de repatriação. O retorno do Manto ao Brasil, após 386 anos, é narrado por ela como o momento em que a alma do povo reencontra seu corpo. Trata-se da cicatrização de uma ferida histórica. Aquilo que foi arrancado pelo mar retorna, agora, pela força conjugada dos Encantados e da ação política.

Quando o Manto toca novamente o solo brasileiro, algo também se move no território. Valdelice descreve esse instante como um despertar. Uma força que “acorda” a terra de Olivença e obriga o Estado a reconhecer os Tupinambá como presença viva. A recepção é feita de ritos e lágrimas, como quem assiste à quebra de um ciclo de ausência. O episódio reafirma que aquilo que foi disperso pode, ainda, retornar. Porque há raízes que não se deixam arrancar e histórias que sempre encontram o caminho de volta para casa.

A visão de futuro de Valdelice Tupinambá é pautada por uma justiça que busca a paz, sem jamais se confundir com submissão. Para ela, a demarcação definitiva do território é o único caminho capaz de interromper séculos de massacres e perseguições jurídicas. Ao mesmo tempo, sua atenção se volta às novas gerações. Preocupa-se com o risco de que a velocidade da tecnologia e o uso constante dos celulares silenciem as histórias que só o “Tronco Velho” é capaz de narrar, memórias que sustentam a continuidade do povo.

A ligação profunda com os Ancestrais e os Encantados fundamenta sua atuação política. Amparada por essa força, Valdelice senta-se à mesa com o Presidente da República e seus ministros não como quem pede, mas como quem representa uma nação anterior ao próprio Estado brasileiro. À frente da luta pela demarcação de cerca de 47 mil hectares, conduz o processo com a sabedoria de quem reconhece que “sangue derramado se paga com justiça, não com mais sangue”.

Sua proposta, nesse sentido, não se orienta pela expulsão indiscriminada, mas por uma justiça reparadora. Defende que o Estado brasileiro assuma a responsabilidade de indenizar as benfeitorias de pequenos agricultores e ocupantes de boa-fé, de modo que o território possa ser retomado sem a produção de novas violências. Essa posição, marcada por firmeza e diplomacia, é levada por ela aos espaços institucionais, onde se afirma como autoridade de um povo soberano.

Para Valdelice, a demora na demarcação prolonga um estado permanente de alerta e insegurança alimentar. O território reconhecido, por sua vez, representa garantia de futuro. É nele que os jovens Tupinambá poderão encontrar um porto seguro, onde tradição e modernidade coexistam, permitindo que o “Tronco do Amaral” continue a florescer; livre de cercas, enraizado na dignidade.

Valdelice encerra sua narrativa como árvore firme, de raízes profundas, que, mesmo consciente de sua passagem por esta terra, se ocupa em garantir que o solo permaneça fértil para os que virão. Em sua travessia, fez do tronco herdado, de Amotara, de Caboclo Marcelino, do “Tronco do Amaral”, continuidade viva.

Sua palavra se projeta como semente de uma “nova história”. Uma história em que o silenciamento dos últimos quinhentos anos cede lugar à dignidade; em que as crianças Tupinambá, entre o celular e o terreiro, saibam reconhecer-se como parte de uma linhagem que não se rompeu. Filhas e filhos de raízes profundas, tão vastas quanto o mar de Olivença e tão sagradas quanto as penas de guará que tecem o Manto. Esse corpo ancestral que, ao retornar, reuniu o que estava disperso e devolveu à terra parte de sua memória viva.

Assim, Valdelice nos lembra que o manto que veste o passado também protege o futuro, como copa frondosa que se abre sobre os que ainda aprenderão a dizer seus nomes. Sua voz dispersa sementes. E, como toda semente, carrega em si a urgência de ser cuidada, transmitida, mantida viva:

“[...] dinheiro não é tudo, né? Mas a história é que é mais do que tudo isso, viu? A história do povo, né? Não pode deixar de jeito nenhum, tem que ser passada, tem que ser geração em geração. [...] porque a nossa história é uma história forte. Se a gente deixa ir com o mar, vai secar e vai encher, né? Ele vai descer e não vai... nós não vamos ter outra geração melhor. Porque a história, gente, a história é vida!”.

"A história é vida. De onde eu vim e para onde eu vou? Se a gente não contar a nossa própria história, o mar seca e a gente não terá outra geração forte para continuar a luta."