Ize Duque

Omi Tutu: a voz que é água fresca acalmando caminhos.

Suas palavras fluem por rios, regando memórias e desaguando em mulheres que vieram antes de si. Ora é lodo fértil, profundo e transmutador de matérias; ora é vapor que se eleva e condensa pra chover mais uma vez, enchendo o mar. A chuva engrossa, vira o tempo e, dentro dela, reluz o raio. Eis Ize: mulher que é viração!

Fruto de raízes afropindorâmicas profundas, Ize Duque Magno, ou Ize Duque, como é mais conhecida, nasceu em Itabuna, no dia 16 de março de 1989, mas viveu sua infância em Ubaitaba, a "cidade das canoas". Navegando pela fluidez das águas de mulheres que zelaram por seu crescimento, na infância e início da adolescência vivida em Ubaitaba, Ize alimentou o seu canto, inestimável legado familiar.

Ao colocar-se em travessias, modifica geografias subjetivas, forjando a mulher que será junto aos locais que habita. Em Ubaitaba, experimenta os primeiros versos, cultivo da alma que ecoará gestos caseiros dos mais velhos, reverberado ensinamentos, práticas e comprometimento com as comunidades populares de seu entorno. A mudança de morada para Itabuna também marca a migração disruptiva de uma jornada: do evangelismo batista conservador para a fé no encantamento do corpo que dança; para a entrega às verdades vindas das emoções e pensamentos que escutam as memórias dos ritmos e tambores, dos sons ancestrais dos couros, dos corpos amando sem amarras. Na UESC, enquanto estudante de Ciências Sociais, Ize se envolve com a política, também herança familiar, que remonta à história de seu pai e de sua irmã mais velha. De dentro do movimento estudantil, lança-se, com sua trupe, no mundo da produção cultural e musical, envolvendo-se ainda com a política pública para cultura do território; em ambas as dimensões — política e cultural —, constrói um protagonismo notável, criativo e propositivo, mesmo dividindo o tempo como mãe e funcionária pública pela UFSB. Ela é parte da nossa negritude, da história da mulher, da mulher negra nascida no território litoral sul da Bahia. Vamos ao encontro de suas raízes?

Sankofa: ave que voa com a cabeça voltada para trás. Para compreender um pouco da história de Ize, voltamos à sua bisavó materna, Dona Adelaide — que aldeada, como ocorreu com parte das comunidades indígenas no Brasil, sai de Itaberaba e vai para as ocupações do Cabula, bairro de Salvador criado por aquilombamento. De Dona Adelaide nasce Roque, que se casará com Dona Janice. Dona Janice, avó de Ize, vem das áreas do Bairro Monte Serrat, também em Salvador. Ela é filha de Dona Dadá, mãe de Santo no Monte Serrat.

Convertida ao evangelismo, Janice conhece Roque, em Feira de Santana, num seminário da igreja Batista, que o consagrará pastor [01] [02] e a ela, missionária, responsável pela música. Se casam em Feira de Santana e, desse encontro, nasce Nancy, mãe de Ize. Quando Nancy tinha cerca de um ano, a família ruma para Ubaitaba, a fim de fortalecer a construção da comunidade batista que então se iniciava na cidade. A ideia do ministério evangélico tinha muito a ver com trabalho comunitário e com a construção de uma solidariedade popular. Assim, os avós de Ize vão criando o seu legado. Isso em 1964.

O avô, Roque — que, além de pastor, também era maçom e, portanto, dissidente dentro do meio evangélico —, fica conhecido na comunidade por acolher pessoas em situação de vulnerabilidade. Sua avó, Janice, como missionária, cuidava das mães, das senhoras e das mulheres grávidas. Pilares da comunidade, os avós de Ize enraízam o amparo, a generosidade e fazem brotar cuidado onde a vida pede abrigo. Transmitem responsabilidades aos filhos, entre eles, Nancy, tecendo uma herança de compromisso e presença no cotidiano. É assim que Ize se torna conhecida: neta de Pastor Roque, neta da Irmã Janice, filha de Nancy e, ainda pela popularidade do pai, nascido na cidade, também filha de Pelé.

Quando o avô falece, a família materna precisa sair da casa do pastorado. A comunidade de Ubaitaba, junto à missionária, constrói uma casa pra sua avó num bairro mais popular. Ainda hoje, ela sai de casa às 6h da manhã, com a Bíblia nas mãos, e vai passando pela cidade, por padarias e mercados, cumprindo a missão de pregar a palavra cristã, isso aos 86 anos. Ficou viúva ainda na década de 70, tendo que tirar o sustento do seu conhecimento da terra e das plantas. Sempre foi uma pessoa muito econômica, plantando, fazia os provimentos renderem. A família não tinha bens materiais. Ou, talvez, tivesse outros: a música e a fé.

Sua família paterna, de sobrenome Magno, era da cidade. Seu avô paterno, comerciante, tinha uma casa chamada Casa Magno, uma grande quitanda onde se vendia de tudo: de pinga a coisas do lar, agulhas, linhas, miudezas do dia a dia. Mas o avô paterno também era conhecido como poeta. Chegou a escrever um livro que nunca foi publicado, pois um jornalista levou o material para edição, mas morreu antes de devolvê-lo, e os escritos acabaram permanecendo com a família, como palavra suspensa no tempo. Quando os avós paternos de Ize se separaram, sua avó, muito conhecida na comunidade católica, abriu um armarinho — o armarinho da Dona Vevé (Silvéria), lugar de tecidos e encontros, onde a vida se tecia no cotidiano da comunidade ubaitabense.

As famílias sempre foram conhecidas e fortes nos movimentos religiosos, tanto do lado católico quanto do evangélico, trazendo consigo uma forte carga cultural. Sua avó Vevé, por exemplo, era envolvida com o terno de reis, com o caruru de Cosme e com as procissões da igreja, no trezenário do Santo Antônio. A casa dela era um ponto de encontro, lugar de fé e convivência. Já os avós maternos recebiam missionários do mundo inteiro em suas casas, o que promovia intenso intercâmbio cultural; além disso, era constante a presença da música.

Vinda de Coaraci, sua avó Vevé (paterna), filha de ciganos, era costureira e, através da costura, estava sempre servindo a comunidade. Foi com linha e agulha na mão que sustentou a família e criou onze filhos. Todos chegaram à universidade. Ize cresceu nesse universo econômico e simbólico, reunindo em si a energia de mulheres costureiras, que precisavam se sustentar de alguma forma. Cresce, então, num contexto em que as duas famílias partilhavam uma mesma pergunta, quase um princípio de vida: o que temos para entregar à comunidade?

Pela ligação com a comunidade, seu pai estava sempre contestando o sistema. Nascido na década de 1950, foi um jovem estudante da Universidade Federal da Bahia (UFBA) no período ditatorial, correndo da polícia e atravessando o medo com o corpo em movimento. A nível regional e municipal, disputou a prefeitura de Ubaitaba e foi eleito vice-prefeito, tendo José Vermelho como prefeito, numa candidatura brizolista pelo Partido Popular Progressista. Figurava, nas composições de alianças, como o homem do povo. Filho de um poeta comerciante e de uma dona de armarinho, era alguém que rivalizava com o poder e os interesses do coronelismo local. Mais tarde, desiludido com a política administrativa municipal e seus jogos de poder, deixa a vida partidária para fortalecer a comunidade, agora como engenheiro, especializado na construção de pontes e estradas, ligando caminhos por onde antes havia distâncias.

Ize cresceu indo à beira do Rio de Contas, sempre em contato com a natureza, fosse nas manhãs de domingo, bem cedo, para ver a canoagem ou brincar de peteca, fosse para atravessar o rio de canoa, a caminho da casa de um parente. A canoa, folha indígena nas águas da nossa história, era um hábito tão corriqueiro em sua vida que a família precisava prestar contas mensalmente, pagando o canoeiro.

É nesse fluxo de travessias e heranças que se revelam matriarcados muito fortes. A avó Janice conhece cedo a experiência da perda. Seu marido, Roque, morre aos 43 anos, deixando-a viúva aos 35, com oito filhos. Ainda assim, segue sustentando a casa com missões e aulas de música, valendo-se da formação que trazia dos seminários de Feira de Santana, bagagem que a acompanha quando chega a Ubaitaba. Passa a dar aulas particulares e em praticamente todas as escolas da cidade (à época, quando a música ainda ocupava lugar no ensino), ao mesmo tempo em que acolhe e orienta mulheres que, como ela, buscavam formas de sustento.

Sua mãe cresce, seus pais se conhecem e, desse encontro, nascem Liz, Ize e Lui Ize [01] [02] [03] [04] [05] [06] vive num ambiente em que a música é um grande bem Aprende, também, a ver na fé um lugar de conforto, na crença de que tudo vai dar certo. Nesse horizonte, ouve sempre a voz da avó materna, repetindo: a música e todas as outras coisas eram para a honra e a glória de Deus.

Em 1984, a comunidade se junta e grava as músicas de Dona Janice, que também era compositora. No texto escrito pelo Pastor Aguiar, revela-se o sentimento comunitário de que Dona Janice merecia ter o seu trabalho registrado, [01] [01] como quem guarda, em som, aquilo que não pode se perder.

A memória da mãe de Ize conta que, aos quatro anos de idade, já auxiliava Dona Janice nas aulas de música. Havia aprendido o básico, os acordes, e se recorda do acordeão no colo, orientando as alunas, enquanto Dona Janice, entre uma tarefa e outra, preparava o feijão e cuidava da casa. “A minha mãe aprendia a tocar órgão, acordeão, flauta, violão, porque minha avó era professora de órgão, de acordeão, de flauta, de canto, de regência; e minha mãe cresce ali, aprendendo e já virando também uma espécie de monitora”, nos conta Ize.

Na igreja, a família passa, então, a ocupar esses lugares. A mãe torna-se regente do coral, tocadora de órgão, e, junto aos irmãos, com diferença de um a dois anos entre si, assumem funções na comunidade religiosa, sobretudo ligadas à música. Ize se vê, nesse contexto, como neta de Dona Janice, a terceira geração da família Duque a assumir as funções de música da igreja — é o seu legado.

Aos seis anos, já se apresenta com o microfone na mão, carregando responsabilidades: cumprir horários, participar dos ensaios, aprender o repertório e, muitas vezes, não poder dizer não É interpelada pela mãe a ser uma filha obediente, de decoro, carregando a responsabilidade de ser a filha da orientadora educacional e do pastor.

O nome curto de Ize foi uma escolha da mãe, que não queria que outros atribuíssem apelidos às filhas; por isso, ela mesma decidiu nomeá-las assim, com nomes breves, que considerava bonitos. Essa prática se tornou tradição na família, primos e primas também carregam nomes curtos. O que se sabe sobre os sobrenomes preserva-se pela oralidade. Conta-se que o sobrenome Duque vem de quatro irmãos que, migrados da Espanha, firmaram vida no Brasil; um deles seria avô da avó Janice.

Já o sobrenome Magno foi, de certo modo, inventado. A avó do avô paterno, Antônio Magno, violentada no abominável regime escravocrata e tornada mucama, foi alforriada ao engravidar de um senhor de engenho. A esposa não suportava a sua presença com um filho. Apesar de a maioria da população escravizada não saber ler e escrever em português, essa ancestral mais velha sabia e, ao ver num jornal o nome “Magno”, decidiu adotá-lo para nomear o filho.

Aos nove anos, Ize já era presidente do grupo de juniores e responsável pelos louvores e pelas cantatas das datas comemorativas, nas quais o grupo se apresentava. Cresceu entre rotinas e muito comprometimento, ensaiando, cantando, apresentando-se com o grupo Cristalzinho, formado por ela e suas irmãs, Liz e Lui. Muitas vezes, subiam ao palco acompanhadas por fitas cassete, LPs e CDs, em playbacks que sustentavam suas vozes ainda em formação. O nome Cristalzinho, no conta Ize, nasce de uma homenagem: foi dado porque “minha avó, minha mãe, minha tia Ani e minha tia Dai tinham o grupo Cristal”. Memória que se desdobra em continuidade, como quem herda o canto e o faz ecoar.

Havia a emoção e o pensamento de que a família estava reunida para aquilo; de que ela própria estava ali para cumprir algo ao mesmo tempo divino e familiar. Hoje, Ize entende que recebeu essas ferramentas, escolhidas no Orum, para cumprir o seu Odù. Assim, mesmo quando a função de musicista exigia abdicação, levando-a, por vezes, a atender às demandas sem querer, aprendeu cedo a ter responsabilidades. Dos nove aos doze anos, já carregava o dever de ser exemplar: nos comportamentos, nas roupas, nos modos. Cantar era também superar a vergonha; era aprender a obedecer; era honrar um lugar de dignidade, um chamado que se fazia voz.

Viver o território sempre foi uma constante na vida de Ize. Mesmo criada em Ubaitaba, quando surgia a necessidade de atendimento médico, de ir à praia ou de acessar um comércio maior, shopping ou cinema, a família recorria a Ilhéus ou a Itabuna. Era um movimento corriqueiro; semanal, às vezes diário. Para além de Ubaitaba, Ize também transitava por Itabuna ainda na infância, e é dessa travessia que nascem amizades que a acompanham desde os 15 anos. Por isso, ela costuma dizer que Itabuna e Ilhéus são cidades tecidas por muitas outras do território do litoral sul, lugares por onde circulam, dia e noite, pessoas que carregam consigo os caminhos de suas origens.

Encruzilhadas. Caminhos que se cruzam, forças que disputam o corpo, silêncios e desejos que começam a pedir passagem. Aos nove anos Ize também experimentava outras possibilidades, para além daquelas oferecidas pelo contexto religioso. Sua grande cúmplice era a irmã Lui, com quem dividia quase a mesma idade, apenas onze meses de diferença. Liz, a mais velha, já habitava outro tempo. Entre elas, havia o decoro familiar; mas havia, também, uma vontade de subverter…

Quando estavam a sós, pegavam o cigarro do pai e flertavam com aquele mundo de fetiche. Faziam poses, imitavam propagandas de TV, ensaiavam gestos que não lhes pertenciam. A mãe não podia saber, aquilo era a perdição. Curiosas, um dia combinaram de acender o fumo num lugar onde ninguém descobriria, nem desconfiaria daquele cheiro estranho. E o lugar escolhido, o mais improvável, foi a escola. Mais precisamente, o banheiro dos professores, com um basculante que deixava o ar correr para o corredor.

A fumaça subiu. E o cheiro, inconfundível, tomou conta dos espaços, invadindo a escola inteira. Diretoras, professoras, equipe de apoio, secretárias, estudantes, todos em alvoroço, tentando descobrir quem ousaria fumar dentro de uma escola batista. Ize e Lui passaram mal com o cigarro. Mas passaram pior quando a mãe as cheirou, desmascarando, num gesto só, todo o plano “perfeito” das netas do pastor, das filhas da orientadora educacional. Um escândalo!

Além das encruzilhadas, lugar dos pequenos desvios e descobertas, há também o retorno ao ninho, o espaço onde o cuidado se aprende no corpo e na convivência. Ize cresce rodeada de mulheres, sobretudo da família materna, já que grande parte da família paterna vivia fora do estado, da cidade, do país. Entre os oito filhos do lado materno, cinco eram mulheres; eram elas que a levavam para brincar, que penteavam seu cabelo, que preparavam a vitamina de banana, ensinavam a cantar, levavam ao quintal para tomar mastruz, pingavam remédios nos olhos para curar a conjuntivite. Tudo tecido num ambiente intrafamiliar de cuidado e partilha.

Ize avalia que, talvez, a igreja evangélica não estimulasse tanto as mulheres a ocuparem o espaço público; por isso, para além da família, suas vivências se concentravam sobretudo no ambiente religioso. E é nesse espaço que ela também se lembra de Tia Verinha e Tia Silmara, que acompanharam de perto seu processo com a música.

Tia Ane era a tia da diversão. Gestos comuns de acolhimento e bem-querer pontuavam a sua relação com Ize. Inspirando confiança, ela regava o crescimento da garota com a música: ensinava técnicas de vibrato, colocava Ize na cacunda, cuidava como mãe; mas também era rigorosa com a afinação, exigindo repetições constantes até que se alcançasse o domínio da voz. Transmitia, assim, como método, a ideia de que talento é paciência e repetição; e de que cantar também era responsabilidade com a comunidade evangélica, com Deus. Era um rigor que vinha de família, pois a avó também fora exigente com sua mãe e suas tias. Essas vivências musicais geravam sentido comunitário, pertencimento, sintonia. Mas, ao mesmo tempo, havia em Ize uma sensibilidade inquieta, uma reflexão sobre as contradições, uma insubordinação em gestação...

Ize estudou toda a sua vida em apenas duas escolas. Do maternal à oitava série, no Colégio Vida, escola de orientação batista, onde sua mãe atuava como orientadora educacional. Suas tias também trabalhavam ali e, junto com Ize, exerciam funções musicais. Cantavam no Dia das Mães, no Dia dos Pais, nas comemorações dos 500 anos do Brasil. Na escola, Ize, bisneta de aldeada, mestiça, negra, afropindorâmica, amava matemática. Encantava-se com as aulas do professor Luiz Henrique e acreditava que aquele aprendizado lhe daria base para cursar mecatrônica no ensino superior.

Como em Ubaitaba não havia ensino médio, migra para Itabuna. É nesse momento, por volta dos 15 anos, que também atravessa outra mudança. Depois de tantos “nãos” — não poder dançar, não poder fazer capoeira, não poder praticar street dance, não poder beijar, não poder usar roupas curtas —, decide romper. Além da cidade, deixa também a igreja. Já não comunga com a doutrina nem com determinadas visões de mundo. Diz não à hipocrisia, não quer mais ser liderança, não quer se batizar. É um deslocamento de corpo inteiro, de território, de crença, de si.

Quando decidiu sair da igreja, “a música morreu”, não porque deixasse de existir, mas porque ali não era vista nem sentida como arte, era função religiosa. Ainda assim, continuou cantando, em casa, no silêncio. O mundo não sabia, mas ela seguia. Estudava, cantava por quatro, cinco, seis horas seguidas por dia, aperfeiçoando-se; muitas vezes, deixava de estudar para as provas para se dedicar ao canto.

A ruptura traz outras sonoridades: ouve Mundo Livre S/A, O'QUadro Lenine. Com a chegada do computador e da internet em casa, constrói uma nova relação com a música, uma relação que o contexto evangélico rotulava como “secular”, mas que, pelas intensidades que provocava, ela reconhecia como profundamente espiritual. Ize lembra-se da primeira vez que ouviu Nação Zumbi e da pergunta que a atravessou: o que é isso que estou sentindo? Escutar Nação e o Mundo Livre S/A abriu nela um deslocamento no campo das ideias, das sensações.

Nesse processo, mergulha também em outras vozes. Fica viciada em cantores como Ana Carolina e Seu Jorge. Queria aprender a tocar pandeiro, já aos 12 anos, ainda na igreja, mas não lhe foi permitido. Havia o racismo, uma interdição sobre tudo o que tivesse couro, sobre qualquer aproximação com o tambor, com a cultura negra. E, ainda assim, algo já vibrava, insistente, irrecusável...

Em Itabuna, Ize cursa os três anos do ensino médio no Colégio Sistema, fazendo, ali mesmo, o cursinho pré-vestibular. É assim que conhece Lorenza Mucida e, com ela, tem o primeiro encontro com a arte viva do teatro dentro de uma sala de aula. Essa cena a atravessa, fazendo-a experimentar o ridículo da arte e a sua coragem. Alguns colegas fazem chacota da performance de Lorenza; para Ize, porém, a experiência é outra, é arrebatamento! A partir daí, algo se transfigura. Apaixona-se por disciplinas de que antes não gostava: português, literatura, as humanidades. E começa a acalentar, também, um certo fascínio pelo Direito.

Apesar de trilhar caminhos de formação acadêmica, no fundo, Ize sempre quis ser cantora. No início, quando se afeiçoa às humanidades e passa a ser cobrada para “ser alguém”, chega a considerar o curso de Direito. Mas em Salvador, aos 18 anos, depois de sair de Itabuna e do Colégio Sistema, durante sua experiência como secundarista, entra em contato com os movimentos estudantis e com a Consulta Popular, por meio da irmã Liz. É ali que tem sua primeira experiência formativa de militância, uma aproximação íntima com teorias revolucionárias, que passam a atravessá-la. Essa vivência a leva a compreender que as Ciências Sociais estavam mais alinhadas às suas interrogações e ao seu desejo de revolução.

Em 2007, aos 18 anos, com o falecimento do pai em um trágico acidente automobilístico, Ize retorna a Itabuna e passa a trabalhar. Seu pai, erê, por ter nascido no dia de Ibejis, de Cosme e Damião, era profundamente amado pela família, pela bisavó materna de Ize, pelo mundo ao seu redor. Era um mobilizador, um petequeiro apaixonado pelo esporte, tendo contribuído para o amadurecimento da prática em Ubaitaba. Por onde passava, promovia encontros, reunia gente, fazia comunidade acontecer. Sua mãe, Dona Vevé, em honra ao dia de seu nascimento, oferecia o caruru com toda a tradição negra que ele exigia: servido, primeiro, a sete meninos, acompanhado de pipoca e rapadura. Foram 52 carurus, ano após ano, até a partida do filho. Três anos depois dessa despedida, Dona Vevé também se vai. O velório do pai precisou acontecer numa quadra, não cabia em outro lugar o tanto de gente de uma cidade inteira comovida.

Depois das perdas e do luto que reorganiza o mundo por dentro, Ize atravessa outro limiar. É aprovada na Universidade Estadual de Santa Cruz. Na universidade, sente-se à vontade para caminhar pelo movimento estudantil; não se via apenas como uma acadêmica da sociologia, mas como um ser político que estudava Ciências Sociais, compreendendo ali um espaço de formação e de instrumentalização para a transformação.

No segundo ano do curso, em 2010, no Inferninho, bar em frente à universidade, ela e os colegas de Ciências Sociais são expulsos por conta de carícias e beijos entre pessoas do mesmo sexo. A revolta vira ação. Em três dias, organizam um ato contra a homofobia, mobilizando, inclusive, o jornalismo televisivo regional. Ize escreve o texto-manifesto. Articulam-se também com estudantes de oposição à gestão majoritária do Diretório Central dos Estudantes. Dessa articulação, nasce o Mobiliza UESC, assim como a formação de um grupo LGBTQIAPN+ que passa a organizar debates sobre gênero, e também a tensionar outras pautas, como a legalização das drogas. Uma semana depois, já estavam mobilizados para uma ocupação de greve que se estenderia por sessenta dias.

Em 2011, quando Ize consegue uma bolsa-residência, passa a morar novamente em Itabuna. O movimento estudantil, à época, tinha uma forte dimensão cultural e artística, e ela recorda que essa força se fazia mais presente nesse campo do que no âmbito político-partidário, de disputa programática e ideológica. Ainda assim, reconhece que a arte também é uma forma de disputar ideias, de tensionar o mundo. Mas, como ela mesma diz: “não foi de eu entrar no curso de Ciências Sociais e sair dali uma deputada estadual; não. Entrei no curso e saí cantora e compositora, foi uma formação cultural”.

É nesse momento de formação cultural, na UESC, quando Ize se descobre artista, que conhece Mither Amorim e Johnny Walker (João), e se encontra com um movimento que reúne nomes como Dr. Imbira e a banda Mendigos Blues. No ambiente universitário, ela reconhece um espaço afirmativo, um lugar que dizia, com força: “nós fazemos arte, nós fazemos cultura”. Essa afirmação lhe devolve a autoestima e a coragem de reconhecer que aquilo que fazia também era arte. Ize recorda que o movimento começava em reuniões, avançava para assembleias e culminava nos rocks, na música, no encontro, na vibração coletiva. Num desses momentos algo se acende. Johnny diz: “Pega o microfone. Dá o microfone a ela”. Para Ize, esse gesto marca um ponto de retorno, como se a história, em alguma medida, se repetisse; como se algo vindo do Orum a chamasse de volta. Então, ela atravessa a vergonha. Pega o microfone. E canta.

Já profundamente envolvida com o movimento estudantil, no Mobiliza UESC, na ocupação de greve e na intensa vivência de sessenta dias, Ize passa a integrar uma brigada cultural e assume a responsabilidade pela música do movimento. É nesse meio que as amizades vão se encontrando, se reconhecendo; e que ela começa a tocar com Nina, Gardênia e Bia, formando as Valquírias Vingadoras. Depois, forma o MPBosque, ao lado de outras artistas e de João (Johnny Walker) e Marcelo Sena (Marcelo Mendigo). Surge, então, uma nova rotina. Ensaios, construção de repertório, criação de uma estética, um fazer que se profissionaliza. Chegar no horário, sustentar o compromisso, tudo era novo e, ao mesmo tempo, estranhamente familiar. O que para alguns poderia ser difícil, para Ize era íntimo. O tempo passa, o projeto ganha corpo e o reconhecimento vem. Até que decidem se constituir como grupo profissional, passando a cobrar cachê. Era também uma necessidade. Ize já não recebia a bolsa de iniciação da UESC e, sem emprego, precisava garantir a própria sobrevivência. Embora tenha apreciado profundamente a formação em Ciências Sociais e sua base reflexiva, não conclui o curso. Ainda assim, reconhece que a formação universitária ultrapassa a sala de aula, seguindo um percurso sensível e atento, que cada vez mais consolida a sua atuação como cantora, poeta, compositora e produtora cultural.

Apesar da familiaridade com o palco, Ize se sentia insegura, tomada, mais uma vez, pelo autoquestionamento. Duvidava de sua capacidade enquanto compositora e artista. Foi então que Marcelo Sena e João insistiram para que ela mostrasse uma de suas composições. A vergonha era tanta que, para cantar, escondeu-se atrás de uma parede. Quantas vezes nascemos assim, rasgando o que nos cobre, tentando lançar ao mundo a vida que somos? Eles não recuaram. Em meio a uma festa, pressionaram com afeto, com entusiasmo, até que, num momento de rendição, Ize confessou que tinha uma música intitulada “O trago”, [01] [02] [03] feita ainda na adolescência. A tensão virou convite, o convite virou insistência; e ela, escondida, cantarolou. Eles vibraram. Insistiram em gravar, mas Ize recusou. Até que Marcelo e João a convenceram, gravando a faixa como uma “brincadeira” despretensiosa.

Ize foi dormir. Quando acordou, a música estava no YouTube. Veio a vergonha, pediu que retirassem. Mas, ao entrar no Facebook, encontrou mensagens, muitas, de pessoas que haviam se emocionado com seu blues. Era um misto de constrangimento e confirmação; medo e abertura; dúvida e, ainda assim, uma fresta de esperança. Se antes questionava se aquilo que fazia tinha valor, inclusive para se converter em sustento, agora já se via gravando um EP, com “O Trago” e outras canções do MPBosque, para circular em bares e restaurantes, abrindo caminhos onde a música pudesse, enfim, também sustentá-la.

“O primeiro lugar em que tocamos foi o Bar da Tia. Levávamos tudo de ônibus: caixa, mesa de som, instrumentos e, assim, fomos desencantando esse processo.” Pouco a pouco, Ize foi se percebendo enquanto artista, isso só depois de dois anos, passando a afirmar, em sua própria biografia, que era cantora. Ela compreende que existem forças sociais e culturais que minam as energias, sobretudo de pessoas do interior e de mulheres negras; e que, por isso, atravessou um período de autossabotagem. Mas, mesmo em meio à violência, há entre nós quem permaneça de olhos e ouvidos abertos, gente que irmana, que aquilomba, que caminha junto. É nesse entrelaçamento de forças, entre aquilo que se tenta conter e o que insiste em florescer, que a voz encontra caminho.

Há entre nós conexões, como se certas pessoas fossem antenas vivas, sensíveis ao que vibra no ar. Juliano Chucri era uma delas. Ao escutar Ize, reconheceu nela uma força e fez o convite: queria-a como frontwoman da banda em que ele assumiria a bateria. Assim ela seguiu avançando, mas agora com uma trupe maior. O Pastilhas começava a ganhar forma: Ize no vocal, Cristian Manguebeat no baixo, Johnny Walker (João) na guitarra e Juliano Chucri na bateria. Sintonizados por um interesse em comum, Ize e os demais integrantes do grupo eram fãs da banca pernambucana Mundo Livre S/A, não à toa, o nome do grupo foi inspirado na canção Pastilhas Coloridas”. Com essa formação, passaram a tocar na Barrakítica, bar de Ilhéus reconhecido como espaço histórico para bandas emergentes, de um cenário alternativo, e também no Bar da Tia. Sempre, porém, enfrentando a precariedade de fazer soar uma banda inteira em estruturas precárias, pensadas quase sempre apenas para voz e violão. Sobre essa experiência, Ize comenta: “...muita doideira, mas, excelentes escolas, por que é tipo aprender a dirigir em carro velho, né?”.

Tocar com frequência nesses espaços foi criando reconhecimento. A banda ganhava corpo, formava público, gerava burburinho. Nem sempre identificavam Ize de imediato, mas reconheciam sua voz; reconheciam, sobretudo, o som que se fazia coletivo. Aos poucos, vieram as músicas autorais. Os bares se tornaram campo de experimentação, lugares onde as canções eram testadas, ajustadas, compreendidas no encontro com quem escutava. Em outro gesto, passaram a ocupar também as praças, abrindo os ensaios, deslocando a música para o espaço comum.

Nesse agito, foram ganhando traquejo. Aprenderam a sustentar o próprio som, a lidar com as falhas, a ler o público, a permanecer em cena. Mais do que tocar, tratava-se de construir uma forma de existir na música, uma prática que buscava coerência entre o que se pensava, o que se criava e o que se oferecia ao mundo. Havia, ainda, um desejo maior de criar sinergia entre as pessoas, de reunir corpos em torno de visões de mundo mais colaborativas do que competitivas. E, no meio de tudo isso, dançar. Curtir. Fazer nascer o novo. Entre tentativas e acertos, Ize seguia afinando não apenas a voz, mas o sentido do que fazia.

Em continuidade a esse amadurecimento, em que a música deixava de ser apenas expressão para se tornar também projeto de mundo, Ize passa a maturar, com seus parceiros, uma atuação mais estruturada na produção cultural. É assim que nasce a Tá Massa Produções, iniciativa por meio da qual organizaram mais de cinquenta eventos, investindo em infraestrutura, em logística, em fomento para a cena independente, para que esses artistas tivessem palco para suas expressões. Nesse mesmo movimento, surge o Jardim Elétrico, um evento/ação que mixava o onírico com uma linguagem popular, periférica, coloquial, criando um espaço em que estética e pertencimento se encontravam. Enquanto isso, a banda seguia. Com a entrada de Dieguets no baixo, o Pastilhas se mantinha em circulação e, entre 2012 e 2018, lança o EP Epastilhas, reunindo composições de Ize, como “O Trago” e “Marias Mortas”. Nessa última, a música se afirma também como denúncia, um canto que escancara o feminicídio e a invisibilidade das mulheres, temas que se tornariam centrais em sua trajetória.

Dentro desse exercício cotidiano de artivismo, tecido entre memória, territorialidade e confluências de saberes, Ize amplia seu campo de atuação. É aprovada em concurso na UFSB e passa a trabalhar como técnica administrativa, ao mesmo tempo em que se aproxima, com maior intimidade, das religiões de matriz afro, aprofundando sua compreensão sobre as formas de resistência das comunidades tradicionais.

Dessa travessia, emerge também o papel enquanto Conselheira de Cultura, representando a universidade. No conselho, e, depois, na mesa diretora, Ize se afirma como uma presença ativa na engrenagem de implementação do Sistema Municipal de Cultura em Itabuna. Não se trata apenas de ocupar um lugar, mas de fazê-lo pulsar. Participa da organização do chamado CPF da Cultura — Conferência, Plano e Fundo —, atuando antes, durante e depois da Conferência Municipal de Cultura. Mobiliza, orienta, planeja, escuta. Nas pré-conferências e na própria conferência, contribui para a construção de uma base sólida, capaz de sustentar a elaboração do Plano Municipal de Cultura.

Antes mesmo dessas etapas, porém, há um momento de maior tensão. A comunidade artística e os trabalhadores da cultura atravessam um período de desamparo. É nesse contexto que Ize se engaja, simultaneamente, nas ações do Conselho e na mobilização da sociedade civil, pressionando o poder público pela criação do Fundo Municipal de Cultura. Havia urgência, pois, sem esse instrumento, o município não poderia acessar recursos federais essenciais. Com a chegada da pandemia de COVID-19, esse esforço revela sua dimensão concreta. Os recursos passam a amparar quem vive da cultura, e Ize segue implicada no processo. Organiza setoriais, participa da construção de editais municipais e contribui para a implementação das políticas viabilizadas pelas leis Aldir Blanc e Paulo Gustavo. Entre a escuta e a ação, entre o rito e a política, Ize reafirma seu lugar. Não apenas como artista, mas como quem sustenta, junto a outros, as condições para que a cultura continue a existir.

As águas seguiram seus fluxos; os raios, por vezes, rasgaram o céu. Nesse curso, Ize também ocupa a Coordenação de Culturas Populares e Relações Comunitárias da Pró-Reitoria de Extensão (PROEX), um lugar estratégico, a partir do qual passa a traduzir as demandas da classe artística para o ambiente acadêmico. É em meio a todo esse rebuliço, já mãe de Naomi, conselheira, estudante de Direito, técnica da UFSB, mobilizadora na implementação de políticas públicas para a cultura, que lança Memória, um trabalho que reúne uma minissérie documental e um álbum. Do disco, desdobram-se outras formas: peças audiovisuais (visualizers), imagens que prolongam o som no tempo, e o videoclipe da canção “Maré”, em que sua poética encontra também o gesto visual.

Com o álbum musical Memória, produzido em parceria com Jonnie Walker - que também assina a composição melódica e direção musical da obra - podemos sentir e pensar os caminhos estéticos e artísticos que Ize nos propõe. Nele, ouvimos a língua lamber a própria linguagem, um cuidado que se deita no ouvido do tempo. Assim, o afrofuturismo orquestra a profundidade dos sons. O ritmo alujá surge como raiz de águas, por onde correm encontros sonoros entre agogôs e atabaques com sintetizadores e baterias modernas, entrelaçando histórias de resistência e ancestralidade. Em certos momentos, é como se o vento atravessasse os arranjos vocais criados por Ize, organizando seus verbos com precisão e delicadeza. A palavra, então, deixa de ser apenas forma e passa a circular, em trânsito, em transe, até tocar o delírio.

Faixas como “Tirar o amor do armário”, “Maré” e “Sequidão” exploram a tensão entre escassez e abundância, temas que atravessam a geografia simbólica do Nordeste e do Litoral Sul. As composições de Ize mobilizam saberes diversos e, por isso, passam a ser utilizadas, inclusive, em espaços de formação universitária. Ainda que não tenha o diploma, o pensamento sociológico se faz presente, vivo e encarnado naquilo que canta e elabora. O trabalho Memória a projeta para além dos circuitos locais. Ize passa a circular por festivais e recebe reconhecimentos como o Selo Educadora Independente, o que amplia a presença de sua música em meios como a Rádio Educadora e a TVE Bahia. Participa de programas como Bahia Meio Dia e Balanço Geral, e tem suas canções incorporadas a trilhas de documentários.

Na música, espalha-se a vida. O canto de Ize revela um estudo profundo, quase uma escuta da magia, uma matemática dos deuses, capaz de articular diferentes camadas da realidade. Transmutando enraizamentos ancestrais e futuros, Ize tempera sua arte com sons que atravessam o tempo em Pindorama: como Clementina de Jesus, Pixinguinha, Os Tincoãs, Baden Powell, Chiquinha Gonzaga e Naná Vasconcelos; bem como com as tradições dos afoxés e as reverberações do dub.

Lembrando Conceição Evaristo, no seu poema “Vozes-mulheres”, Ize projeta sua existência numa ressonância de tempo espiralado, ecoando a vida-liberdade na voz de uma mulher negra que canta mundos em calda de poesia, afirmando a vida, o prazer e a vadiagem como potências disruptivas. Em um país atravessado por violências patriarcais e por uma colonialidade ainda operante — supremacista, moralista, insistente em negar aquilo que temos de mais vital —, esse canto não é pouca coisa, pois “recolhe em si/ a fala e o ato. / O ontem – o hoje – o agora”.

Como nos lembra Frantz Fanon, “cada geração, numa relativa opacidade, deve descobrir sua missão, cumpri-la ou traí-la”. Há, na trajetória de Ize, um destino que se (re)faz no movimento, odù que não se cumpre em linha reta, mas em voltas, retornos, (re)invenções. Assim como no rito do omi tutu, Ize manifesta o frescor que acalma, mas também força que escava, que segue seu curso mesmo quando tudo parece conter. Seu canto é de ave — Sankofa — que olha para trás sem se perder, (re)colhendo em si um manancial infinito de vozes-mulheres, habitando a encruzilhada do tempo. Por isso, ela é ubuntu, sua história não termina nela. É água no abraço sincero na filha, na mãe, nas irmãs, na família, nos amigos. É festa que irrompe na gargalhada, na vadiagem, na poesia. Ize nos inspira a fazer do próprio destino um gesto de criação, uma memória viva que não cessa de brotar.

"tinha essa coisa do decoro, mas existia ali dentro de mim uma vontade de subverter."