Spartakus
Quantos caminhos pode tomar a nossa negritude? De quantas formas podemos existir? Quantas vidas cabem em um só corpo atravessado por memória, luta e desejo? Spartakus põe a vida como resposta em movimento. É malungo de guerra que atravessa o corpo-território, guiado pela chama acesa da ancestralidade.
Nascido em Itabuna, em 30 de maio de 1994, e criado no bairro São Caetano, entre os afetos da tia e avó foi menino de dentro, introspectivo, que encontrou nos livros e na Escola Curumim seus primeiros territórios de mundo.
Mais tarde, no Colégio Sistema, fez ecoar sua voz ao produzir seu primeiro vídeo viral na internet. Gesto que o levaria à UFF, no Rio de Janeiro, onde estudou Comunicação e ampliou seus horizontes com passagens por espaços como a Rede Globo e MTV. Entre deslocamentos e retornos, sua trajetória se constrói como encruzilhada entre memória e desejo, projetando sua militância antirracista, LGBTQIAPN+ e educativo-cultural para além das fronteiras, sem jamais romper com as raízes que o chamam de volta ao litoral sul baiano, onde se reinaugura como artista. Segue enquanto potência, enredando afetos, tensões e insurgências num corpo negro, gay e sul-baiano em permanente movimento.
Nascido em Itabuna, em 30 de maio de 1994, e criado no bairro São Caetano, entre os afetos da tia e avó foi menino de dentro, introspectivo, que encontrou nos livros e na Escola Curumim seus primeiros territórios de mundo.
Mais tarde, no Colégio Sistema, fez ecoar sua voz ao produzir seu primeiro vídeo viral na internet. Gesto que o levaria à UFF, no Rio de Janeiro, onde estudou Comunicação e ampliou seus horizontes com passagens por espaços como a Rede Globo e MTV. Entre deslocamentos e retornos, sua trajetória se constrói como encruzilhada entre memória e desejo, projetando sua militância antirracista, LGBTQIAPN+ e educativo-cultural para além das fronteiras, sem jamais romper com as raízes que o chamam de volta ao litoral sul baiano, onde se reinaugura como artista. Segue enquanto potência, enredando afetos, tensões e insurgências num corpo negro, gay e sul-baiano em permanente movimento.
A aventura de Spartakus Santiago Fernandes Francisco começa já na escolha de seu nome. Vindo de uma linhagem de Josés — o bisavô, Gerônimo José Francisco; o avô paterno, José Filho; o pai, José Francisco Neto; e o avô materno, também José, José Fernandes —, tudo indicava que, seguindo os ritos e costumes familiares, ele herdaria o mesmo nome. Mas sua Mãe,
Andrea Fernandes da Silva,
vinda de Governador Valadares (MG), filha de Dona Creuza Maria Caldas e criada entre os caminhos do comércio, decidiu desinventar a tradição. Impactada após assistir ao filme de Stanley Kubrick sobre o guerreiro trácio Espártaco, líder de uma das mais célebres revoltas por liberdade da Roma Antiga, entregou-se a um ato de criação e destino. Plantou dois pés de feijão, nomeando um de Spartakus e outro de Leonardo, e prometeu que o mais forte daria nome ao filho que viria.
A sorte estava lançada, entregue ao cosmo. A expectativa, o drama e a graça agiam na gira da vida. Quem pode contra os rumos do universo? Quem guia seus movimentos? Odùs. A palavra nascia antes do corpo, encarnada como fruto dos sentidos da natureza. E, como flecha certeira, ali também estava a poesia. Spartakus brotou, vingou, cresceu forte, tão seguro de seu rumo que o outro sequer chegou a nascer. Recado dado pelo mistério, nome cravado. Nasceria alguém cuja palavra que o identifica já anuncia revolução, rebeldia e, acima de tudo, uma busca incessante por liberdade.
Nos primeiros dias de vida, Spartakus morou no bairro Lomanto, um entre tantos da periferia de Itabuna, território que se expandiu com as sucessivas crises políticas e econômicas do início dos anos noventa, somadas ao colapso da lavoura cacaueira, que empurrou milhares do campo para a cidade, fazendo crescer bairros nas margens dessa cidade de nome tupi: Itabuna. Ali, entre corpos de traços negros e mestiços, inscrevem-se marcas de uma ascendência afro-indígena que também o atravessa. Após a separação dos pais, mudou-se para Salvador, onde viveu por cerca de um ano com o pai e a madrasta. Vindo de uma família de motoristas (o avô, caminhoneiro que sustentou os seus rodando o Brasil; o pai, motorista de ônibus; o tio Marcos, também) cresceu entre deslocamentos. E, nesse entrelaçamento de jornadas, de recuperação pessoal, de crises familiares, regionais, nacionais e mundiais, o pai decidiu que a avó e a tia reuniam melhores condições de cuidado, devolvendo-o, assim, ao território onde suas raízes continuariam a se firmar.
Nosso nego retorna a Itabuna por volta dos dois anos e vai morar no bairro São Caetano, ao lado daquelas que se tornariam suas maiores referências de amor, carinho, afeto e cuidado por toda a vida. Spartakus reencontra, ali, um território já fincado por sua família. Os avós paternos, Maria de Lourdes Borges Francisco e José Francisco Filho, haviam migrado de Salvador para Itabuna — e, antes disso, sua avó viera de uma travessia ainda mais longa, passando por Itapebi. Primeiro, estabeleceram-se na Rua São José; depois, seguiram para a Rua São Paulo, onde a vida ganharia novos contornos.
É nesse chão que cresce, em convivência estreita com a prima Beatriz Matos Silva, com quem partilha a infância como se irmãos fossem, entre brincadeiras, descobertas e cumplicidades. Trata-se de uma família exposta às adversidades, à pobreza, à fome, às durezas do mundo, mas que, ainda assim, consegue, na medida do quase impossível, nutrir o afeto como gesto de resistência. Uma família que encontra, no ensino e no serviço público, horizontes de transformação. A tia ingressa na Justiça do Trabalho; outros tios seguem o mesmo caminho, por meio de concursos, ampliando as condições materiais e simbólicas de existência. Assim, fazem da educação um investimento de futuro, uma aposta coletiva em dias melhores.
A criança é matriculada na Escola Curumim, instituição que Spartakus reconhece como uma das grandes responsáveis por sua formação. Ali se dá seu principal espaço de convivência social; ali, também, descobre-se gente e começa a se formar no mundo. A Curumim inaugurada em 1991, emerge em um contexto de redemocratização do Estado brasileiro, marcado por intensas transformações socioeconômicas e pela emergência de projetos educacionais comprometidos com humanismos, poéticas e propostas civilizatórias plurais, em contraste com modelos tradicionais ainda atravessados pela colonialidade do poder que historicamente molda a educação brasileira.
Nesse cenário de transformações, a Escola Curumim pulsa em sintonia com forças locais que lutaram pela estadualização da FESPI, processo que daria origem à UESC, primeira universidade pública da região. Ao mesmo tempo em que reflete, no campo da educação privada, movimentos de reinvenção diante das novas dinâmicas urbanas e das demandas por propostas pedagógicas menos tradicionais. Em meio à crise da lavoura cacaueira, que reconfigurava a vida econômica e social do sul da Bahia, a escola se firma como espaço de resiliência e reestruturação para famílias que buscavam, na educação, caminhos de futuro em um mundo atravessado por rápidas transformações tecnológicas: surge a telefonia móvel, computadores novas mídias de armazenamento de informação, internet, etc. Fundada por Rita e Raquel, amigas da tia de Spartakus, a Curumim torna-se território de encontro, formação e possibilidade, onde Spartakus inicia uma travessia em que aprender e existir passam a caminhar juntos.
As forças que moldam o Ori começam a trabalhar. Spartakus passa a estudar em um espaço que estimula sua reflexão crítica, sua criatividade, sua veia artística e filosófica, sua consciência racial e suas indagações sobre o sentido de estar no mundo . Ali, Spazinho — como é apelidado — escreve o primeiro poema, encena a primeira peça e amadurece o corpo performático nas apresentações das Manhãs de Primavera, ou mesmo ao dar vida ao jumento de Os Saltimbancos. Entra em contato com matrizes indígenas do território, com expressões afro de afirmação identitária e com múltiplas leituras políticas do mundo. Constrói, assim, memórias e ferramentas que o ajudam a se reconhecer, a desejar transformar o mundo, a inscrever-se na história. É incentivado a escrever sobre sua identidade, a desenhar, a dançar, e ama profundamente tudo isso. Guarda, com carinho, as aulas e os encontros com professores e professoras como: Radamés, Railda, Rita e Raquel Prudente, Jorge Batista e Elbert.
Mas, à medida que cresce, conhece também as durezas do espaço escolar. O bullying por ser gay, o isolamento, as violências por não corresponder aos padrões de masculinidade, por caminhar mais entre as meninas, por preferir a dança ao futebol, por habitar, em seu corpo, outros modos de existir. Ferido pela violência homofóbica, Spartakus se recolhe. Ainda mantém algumas amizades, sobretudo com meninas, mas, com o tempo, mergulha cada vez mais nos estudos e, quase instintivamente, passa a cuidar de sua autoestima, ancorando-se nas pequenas vitórias e nas possibilidades de expressão encontradas nos concursos de desenho e de cartas, nas dimensões terapêuticas da arte e nas reflexões críticas das redações.
Guerrilheiro contestador, enfrenta a dor, como lembra Raquel em carta escrita por ocasião de sua despedida da escola, fazendo da arte, desde cedo, um território de cura.
Concluída a educação fundamental, Spartakus segue para o Colégio Sistema. E o que encontra é um choque. Trata-se, segundo suas próprias palavras, de um ambiente muito mais voltado à formação de um “profissional de sucesso” do que de um ser humano em suas múltiplas dimensões. Imersa na lógica da competição capitalista, a escola privada, pressionada por resultados e por suas próprias demandas financeiras, transforma, em parte, gente em número de matrícula e, sob o signo de uma suposta meritocracia, busca afirmar-se pelo volume de aprovações em vestibulares. Nesse contexto, os estudantes são tensionados a viver sob o ritmo intenso da resolução de questões e da exposição em campanhas de sucesso. Dinâmica que, em Spartakus, produz um sentimento profundo de angústia.
Se na Curumim, mesmo nos momentos de isolamento, ele encontrava nas redações , na strong> filosofia e nas strong> artes caminhos para expressar a consciência crítica, [01] [02] no Sistema essas brechas parecem rarear. E, como se não bastasse, intensifica-se a exposição a um bullying ainda mais agressivo. Como sobreviver a esse ambiente? Como sustentar-se quando os espaços de escuta e criação se estreitam? É nesse território de tensão que sua travessia se reinventa, mais uma vez.
Além do cuidado de pessoas da escola, como Célia Fonseca, é no sentimento de pertença ao coletivo, na competição em equipe e nas possibilidades de expressão artística oferecidas pela gincana do Colégio Sistema, com seus desfiles e danças, que Spartakus encontra algum sentido para seguir. Nosso jovem passa a nutrir esse pertencimento na luta pela equipe Tatu. [01] [02] A vitória torna-se uma chance de afirmar, para si mesmo, que tem valor, como antes fizera na Curumim. Ainda assim, mesmo atravessado pela violência, professoras como a poeta e performer Lorenza Mucida recordam sua capacidade de, em meio à dor, cultivar gestos de delicadeza, verdadeiros jardins de cuidado que devolvem fôlego à vida dos outros. Lorenza, inclusive, guarda até hoje os manequins que ele lhe presenteou, recriações sensíveis de suas performances em sala de aula. Seriam essas as sintonias suaves das redes que o sustentam?
Nesse contexto competitivo das gincanas, Spartakus Santiago Fernandes Francisco torna-se uma das pessoas responsáveis pela produção de vídeos, especializando-se na escrita de roteiros, na edição, na gravação e na escolha precisa das trilhas sonoras. É assim que, a partir de uma proposta do professor de Geometria, Enexandro Nobre, que desafiava os alunos a ensinar conteúdos em formato livre, Spartakus, ao lado de Mariana Rosas, Paula Lavinsky e Andresa Santana, produz aquele que viria a ser seu primeiro grande sucesso na internet: equipe Tatu. uma paródia educativa de Telephone, que hoje acumula mais de meio milhão de visualizações.
A escolha da canção não se dá ao acaso. Carrega, também, um gesto de afirmação, uma vez que Spartakus, atravessado pela violência homofóbica que sofria, transforma sua criação em resposta insurgente contra a heteronormatividade que o sufocava. Nesse movimento, a música pop, especialmente as obras de artistas como Beyoncé e Lady Gaga, assume papel fundamental na elaboração subjetiva de jovens gays, oferecendo não apenas identificação, mas também repertórios simbólicos de força, liberdade e autoafirmação. É nesse campo sensível que Spartakus encontra linguagem para existir e resistir.
O Vídeo ganha projeção nacional, alcança a página inicial do YouTube e, após ser compartilhado pelo blog Não Salvo, então de grande audiência, abre caminhos inesperados. Ele e suas colegas passam a receber convites de diferentes canais de televisão, sendo entrevistados, inclusive, no Jornal da Globo e no Programa da Eliana, ambos em rede nacional. Esse reconhecimento acende, em Spartakus, o desejo de trabalhar com criatividade e de ultrapassar os limites regionais. Ainda assim, sobre ele pairava a expectativa de que seguisse o curso de Direito, especialmente pela centralidade e pelo prestígio que a formação jurídica da UESC ocupava no imaginário social da região.
Tendo como referências os colegas de escola Camila Camuso e Marcelinho Marcelinho (Marcelo Mucida), ex-integrantes da equipe Tatu que já viviam no Rio de Janeiro e estudavam na UFF, Spartakus abandona o projeto de seguir a carreira jurídica e decide ingressar na universidade, cursando Publicidade e Comunicação Social. Apesar do grande sucesso de seu vídeo, ainda não se reconhece como youtuber, nem enxerga o YouTube como profissão ou possibilidade de sustento. Seu horizonte estava voltado para o trabalho criativo no mercado publicitário do Sudeste. Chega, então, ao Rio de Janeiro movido pelo desejo de se reinventar, de começar do zero. Para ele, começar do zero significava também se ajustar, enquadrar-se, tornar-se aceitável. Performar uma masculinidade heteronormativa, ouvir outras músicas, desejar outros corpos, afastar-se de si. Sem Lady Gaga, sem Beyoncé...
Nesse processo, a violência estrutural, essa herança colonial que insiste em atravessar a experiência da negritude, se manifesta como força de negação. Negação do corpo, da ancestralidade, das conexões profundas com a natureza e com a própria história. Em Spartakus, essa tensão se intensifica ao exigir também a negação de sua sexualidade. É assim que, no silêncio dessa travessia, instala-se uma forma de automutilação subjetiva, que o acompanha por cerca de um ano no Rio de Janeiro. Um tempo de distanciamento de si, em que existir parecia depender, dolorosamente, de deixar de ser.
Ainda assim, é nesse primeiro ano que nosso insurgente começa a colher frutos. Já no primeiro período da faculdade, Spartakus conquista o segundo lugar no prêmio da Associação Brasileira de Propaganda, com uma peça criada para a revista Coquetel, e participa, no mesmo período, do Festival Brasileiro de Publicidade, em Búzios. Ao final desse ciclo inicial, instigado por um amigo a refletir se já havia realizado ao menos 25% do que desejava, percebe que, embora tenha acertado em alguns caminhos, em outras encruzilhadas da vida tomara rumos que o afastavam de si. É então que decide se reencontrar. Abraçar-se, curar-se, permitir-se ser mais livre, assumir-se como homem gay, experimentar o desejo, viver o afeto, ser feliz.
No segundo ano de faculdade, inicia sua trajetória profissional com estágios em pequenas empresas, passando pelo núcleo de marketing da própria universidade e por uma agência em Niterói, até chegar à Rede Globo. Ali, apenas compartilhar o mesmo espaço com Hans Donner, criador da icônica abertura do Fantástico, já lhe parecia uma vitória. A emissora, com seu vasto capital simbólico e material, ocupa lugar central no imaginário de diferentes gerações e territórios, sendo a maior empresa de comunicação do Sul Global e articulando-se a amplas redes de poder político e econômico no país. Integrar esse circuito e inscrever-se em seu quadro significava ampliar horizontes, especialmente para um jovem estudante de publicidade. Spartakus não apenas estagia, é efetivado e permanece por mais de dois anos na emissora como assistente de direção de arte. Uma conquista expressiva, marco importante em sua trajetória.
Morar em Copacabana, em um apartamento próprio, mobiliado a seu gosto; acordar e seguir de bicicleta para o trabalho, com a praia se abrindo diante dos olhos; acompanhar gravações, circular entre artistas, registrar momentos ao lado de nomes como Didi, Suzana Vieira e Fátima Bernardes. Tudo isso deslumbra e faz Spartakus feliz por um tempo. Com o passar dos dias, porém, algo se desloca. Percebe-se, muitas vezes, criando e dizendo o que a empresa deseja, e esse desejo nem sempre coincide com o seu. Surge, então, a sensação de aprisionamento, mais um dilema, mais uma encruzilhada: a liberdade ou o canto seguro numa gaiola de ouro?
O processo de impeachment de Dilma Rousseff intensifica suas inquietações, sobretudo por não se reconhecer no jornalismo praticado pela emissora, que, a seus olhos, mais contribuía para o golpe do que dialogava com seu posicionamento político. É nesse contexto que passa a vislumbrar outras rotas possíveis. Inspirado pela trajetória de um colega que ocupara anteriormente seu cargo na Rede Globo e que, após estudar na Miami Ad School, seguiu para trabalhar em Nova York. Spartakus começa a imaginar novos voos.
Ao conquistar uma bolsa de estudos, com parte dos custos custeada pela Rede Globo, para cursar, por dois anos, a Miami Ad School, Spartakus passa a dedicar-se intensamente e, como resultado, acumula reconhecimentos. Recebe prêmios como melhor aluno do semestre, conquista por duas vezes o Best of Show e obtém diversos troféus por seu desempenho em diferentes disciplinas. Sua determinação estava diretamente ligada ao desejo de chegar a Nova York com respaldo, bagagem e valor simbólico. Nesse percurso, vence também o Wave Festival, ampliando sua atuação no campo publicitário. Isso era, para ele, a construção de um passaporte possível para o trabalho fora do país.
Para viabilizar esse projeto, era preciso economizar. Spartakus entrega o apartamento em Copacabana e passa a dividir um quarto com uma amiga. Sua rotina torna-se extenuante. Estuda das 19h às 22h e, sem recursos para adquirir um computador de alta performance, retorna à Globo, onde, sob o pretexto de estar de serviço, utiliza os equipamentos da emissora. Trabalha, em média, das 23h às 4h da manhã; depois, com um pequeno travesseiro, recolhe-se para dormir em uma sala de reuniões. Durante cerca de três meses, vive assim, permanecendo na emissora e indo para casa apenas uma vez por semana, para lavar roupas. Nesse cotidiano limítrofe, encontra, contudo, gestos de solidariedade. Faxineiras, porteiros e vigias, cientes da situação, silenciosamente o amparam, compondo uma rede de cuidado que também sustenta sua travessia.
Enfim, arruma a mala e ruma para Nova York, o grande epicentro do capitalismo contemporâneo, onde é aceito como estagiário em uma das mais prestigiadas agências de publicidade, marketing e relações públicas do mundo, a Ogilvy. Leva consigo prêmios, roupas, materiais de trabalho. Mas, sobretudo, carrega o peso invisível do burnout. Spartakus chega exausto, adoecido pelo excesso de trabalho e pelo esforço contínuo. Como um personagem de O Diabo Veste Prada, vê secar a fonte: já não há energia para criar. Permanece por três meses na cidade. Faz amigos, experimenta a vida, respira outros ares, mas não consegue entregar o suficiente para ser efetivado.
Tudo errado, tudo certo. O pássaro foi morto ontem por uma pedra que só seria lançada hoje. Os caminhos já estavam abertos, faltava apenas que Spartakus Santiago os enxergasse. De volta ao Brasil, ainda sem emprego, trazia consigo uma semente plantada tempos antes. Nas madrugadas em que permanecia na Rede Globo, buscava, vez ou outra, refrescar a mente navegando na internet; foi assim que se deparou com os debates em torno do clipe “Vai Malandra”, de Anitta, especialmente sobre o uso de tranças e as discussões acerca de apropriação cultural. Munido de sua experiência na criação de conteúdos virais e de uma compreensão amadurecida sobre questões étnico-raciais, como colorismo e apropriação cultural, produz um vídeo para intervir no debate. O resultado é imediato, mais de quatro milhões de visualizações e um crescimento vertiginoso de seguidores.
A partir daí, reconhece um caminho possível. Articular estudo, reflexão crítica, didática e potência comunicativa para produzir conteúdos de utilidade pública. Comentando notícias, participa das lutas LGBTQIAPN+ e enfrenta temas raciais sensíveis, contribuindo para a ampliação dos horizontes de liberdade. Assim, em 2017, com desdobramentos ainda mais intensos em 2018, nasce um novo trabalho: o de influenciador digital. Com ele, vêm também os reconhecimentos. Torna-se um dos criadores negros selecionados para financiamento pelo YouTube, recebe o prêmio Builder 2018, concedido pela Youpix, conquista a placa de 100 mil inscritos e alcança ampla visibilidade. Mas, em um contexto de ascensão da extrema direita, a notoriedade traz consigo outras faces. Passa a ser alvo de ataques de haters extremistas, manifestações racistas e disseminação de fake News. Violências que, ainda assim, não interrompem sua travessia.
Spartakus sobe ao palanque ao lado de Fernando Haddad e Manuela D’Ávila, [01] [Fonte] , apoiando aqueles que acreditava poderem fortalecer suas pautas e lutas. Com a eleição de Jair Bolsonaro, no entanto, vê-se lançado ao centro de uma onda de ódio. Sua imagem é distorcida, passando a ser retratado como extremista, como alguém que odiaria pessoas brancas. Seu nome alcança os trending topics do Twitter, mas sob o peso de uma crise de imagem. E, então, o medo se instala. Quais olhares o atravessam na rua? Em quem confiar ao sair de casa? Ansiedade, ataques de pânico e depressão passam a ocupar sua mente.
Diante desse cenário, reinventa sua estratégia de luta. Afasta-se das disputas mais imediatas e passa a produzir conteúdos de caráter mais educativo, ancorados na cultura pop. Os temas permanecem, mas a abordagem se transforma; menos centrada em notícias e polêmicas e mais atravessada pela música, pelos videoclipes, pelas linguagens do entretenimento. Assim, amplia sua atuação de modo mais saudável, afirmando-se como ativista e comunicador de cultura pop, até tornar-se referência no país. Falar das artistas que, um dia, estiveram associadas à sua rejeição na infância revela-se, inclusive, um gesto terapêutico, e abre novas possibilidades profissionais durante a pandemia.
É nesse contexto que Spartakus se torna apresentador do Canal Futura e da MTV Brasil. Pela primeira vez, vê na tela um VJ negro e gay, e esse VJ é ele. No pós-pandemia, sua presença se consolida. Entrega o prêmio de álbum do ano a Pabllo Vittar, cobre o MTV Video Music Awards e entrevista Anitta no tapete vermelho, no mesmo ano em que a artista conquista o prêmio de melhor artista latina e se apresenta no palco principal. É a imagem que se reinscreve, não mais atravessada pelo silenciamento, mas afirmada como presença, voz e representação.
Consolidam-se, então, as frentes de atuação de Spartakus: publicitário, apresentador e influenciador digital. Mas uma nova inflexão se impõe, a transformação na lógica das redes sociais e de seus algoritmos. A exigência por conteúdos capazes de atrair mais público, gerar monetização e sustentar a circulação de anúncios torna-se regra; e, com ela, a necessidade de produzir cada vez mais. Rareia o tempo para pesquisas aprofundadas, a criação passa a responder à urgência. E, mais uma vez, instala-se a sensação de prisão. Sendo esse o seu ganha-pão, o ciclo de exaustão retorna, acompanhado por questões de rejeição e autoestima, já que o bem-estar parece, agora, condicionado ao número de curtidas que cada vídeo alcança. A criatividade entra novamente em crise e, com a saúde fragilizada, torna-se necessário buscar cuidado. A terapia como gesto de retomada de si.
A terapia, conduzida com sua psicóloga, abre para Spartakus Santiago Fernandes Francisco o horizonte da criação musical. Agora, sem as amarras da cobrança, a música o conduz a um território de cura, lugar de enfrentamento da autorrejeição, de reencontro com a potência artística e de reinvenção de si. Nesse movimento, passa a compor não apenas canções, mas um verdadeiro documento sensível, no qual revisita suas raízes territoriais e revela, com maior profundidade, quem é. Ao longo de três anos, em colaboração com amigos de Itabuna, como Thierry Brito, Augusto Santos, Raone Calixto, André Venceslau e Rick Trindade, e com artistas de diferentes partes do Brasil, constrói uma obra que incorpora sua cultura, a espiritualidade e as reverências a entidades como Obaluaê, Exu, Oxóssi, Oxalá e Ogum.
Desse processo, nasce o álbum visual intitulado Livre Com Fiança, que já recebe reconhecimento internacional ao conquistar menção honrosa na categoria de Melhor Clipe e o prêmio de Melhor Diretor Estreante no Independent Shorts Awards, em Los Angeles, competindo com cineastas norte-americanos. A obra condensa e entrelaça suas múltiplas expressões — cantor, poeta, comunicador — e ainda revela outra dimensão de sua existência: a de cartomante. Sim, cartomante. Spartakus é múltiplo; sua trajetória, uma constelação em movimento.
Cartas lançadas, destino posto à mesa. Spartakus, em sua travessia de multiartista, nos ensina a necessidade de nos respeitarmos cada vez mais, de compreendermos que a vida pode, e deve, ser mais leve para todos. Não é preciso provar incessantemente quem somos, nem multiplicar performances para alcançar aceitação. Os caminhos da liberdade, lembra-nos, não devem conduzir ao adoecimento, mas à cura. Guarda, por isso, profunda gratidão à amiga Camila Brito, que o conduziu a um retiro espiritual transformador, onde encontrou, enfim, um lugar de paz e abertura.
A partir dessa experiência, reconecta-se com a espiritualidade afro-brasileira, reconhecendo o sagrado que pulsa no mundo vivo. Nas águas do mar, na lágrima salgada onde habita Iemanjá, nos búzios lançados sob os desígnios de Oxumaré. Se, no início, um nome foi confiado ao mistério, plantado como semente na terra e entregue ao tempo, agora é a própria vida que floresce como resposta. Entre telas, palcos, palavras e silêncios, Spartakus aprende, e nos ensina, que criar é também curar, que existir, em sua plenitude, pode ser um gesto radical de amor. Guiado pelos ventos da ancestralidade e pelos sopros do sagrado que habitam o mundo, segue em movimento, fazendo de si caminho, de sua arte, oferenda, e de sua presença, um convite. Viver, enfim, com mais verdade, mais leveza e mais liberdade. Arroboboi!
A sorte estava lançada, entregue ao cosmo. A expectativa, o drama e a graça agiam na gira da vida. Quem pode contra os rumos do universo? Quem guia seus movimentos? Odùs. A palavra nascia antes do corpo, encarnada como fruto dos sentidos da natureza. E, como flecha certeira, ali também estava a poesia. Spartakus brotou, vingou, cresceu forte, tão seguro de seu rumo que o outro sequer chegou a nascer. Recado dado pelo mistério, nome cravado. Nasceria alguém cuja palavra que o identifica já anuncia revolução, rebeldia e, acima de tudo, uma busca incessante por liberdade.
Nos primeiros dias de vida, Spartakus morou no bairro Lomanto, um entre tantos da periferia de Itabuna, território que se expandiu com as sucessivas crises políticas e econômicas do início dos anos noventa, somadas ao colapso da lavoura cacaueira, que empurrou milhares do campo para a cidade, fazendo crescer bairros nas margens dessa cidade de nome tupi: Itabuna. Ali, entre corpos de traços negros e mestiços, inscrevem-se marcas de uma ascendência afro-indígena que também o atravessa. Após a separação dos pais, mudou-se para Salvador, onde viveu por cerca de um ano com o pai e a madrasta. Vindo de uma família de motoristas (o avô, caminhoneiro que sustentou os seus rodando o Brasil; o pai, motorista de ônibus; o tio Marcos, também) cresceu entre deslocamentos. E, nesse entrelaçamento de jornadas, de recuperação pessoal, de crises familiares, regionais, nacionais e mundiais, o pai decidiu que a avó e a tia reuniam melhores condições de cuidado, devolvendo-o, assim, ao território onde suas raízes continuariam a se firmar.
Nosso nego retorna a Itabuna por volta dos dois anos e vai morar no bairro São Caetano, ao lado daquelas que se tornariam suas maiores referências de amor, carinho, afeto e cuidado por toda a vida. Spartakus reencontra, ali, um território já fincado por sua família. Os avós paternos, Maria de Lourdes Borges Francisco e José Francisco Filho, haviam migrado de Salvador para Itabuna — e, antes disso, sua avó viera de uma travessia ainda mais longa, passando por Itapebi. Primeiro, estabeleceram-se na Rua São José; depois, seguiram para a Rua São Paulo, onde a vida ganharia novos contornos.
É nesse chão que cresce, em convivência estreita com a prima Beatriz Matos Silva, com quem partilha a infância como se irmãos fossem, entre brincadeiras, descobertas e cumplicidades. Trata-se de uma família exposta às adversidades, à pobreza, à fome, às durezas do mundo, mas que, ainda assim, consegue, na medida do quase impossível, nutrir o afeto como gesto de resistência. Uma família que encontra, no ensino e no serviço público, horizontes de transformação. A tia ingressa na Justiça do Trabalho; outros tios seguem o mesmo caminho, por meio de concursos, ampliando as condições materiais e simbólicas de existência. Assim, fazem da educação um investimento de futuro, uma aposta coletiva em dias melhores.
A criança é matriculada na Escola Curumim, instituição que Spartakus reconhece como uma das grandes responsáveis por sua formação. Ali se dá seu principal espaço de convivência social; ali, também, descobre-se gente e começa a se formar no mundo. A Curumim inaugurada em 1991, emerge em um contexto de redemocratização do Estado brasileiro, marcado por intensas transformações socioeconômicas e pela emergência de projetos educacionais comprometidos com humanismos, poéticas e propostas civilizatórias plurais, em contraste com modelos tradicionais ainda atravessados pela colonialidade do poder que historicamente molda a educação brasileira.
Nesse cenário de transformações, a Escola Curumim pulsa em sintonia com forças locais que lutaram pela estadualização da FESPI, processo que daria origem à UESC, primeira universidade pública da região. Ao mesmo tempo em que reflete, no campo da educação privada, movimentos de reinvenção diante das novas dinâmicas urbanas e das demandas por propostas pedagógicas menos tradicionais. Em meio à crise da lavoura cacaueira, que reconfigurava a vida econômica e social do sul da Bahia, a escola se firma como espaço de resiliência e reestruturação para famílias que buscavam, na educação, caminhos de futuro em um mundo atravessado por rápidas transformações tecnológicas: surge a telefonia móvel, computadores novas mídias de armazenamento de informação, internet, etc. Fundada por Rita e Raquel, amigas da tia de Spartakus, a Curumim torna-se território de encontro, formação e possibilidade, onde Spartakus inicia uma travessia em que aprender e existir passam a caminhar juntos.
As forças que moldam o Ori começam a trabalhar. Spartakus passa a estudar em um espaço que estimula sua reflexão crítica, sua criatividade, sua veia artística e filosófica, sua consciência racial e suas indagações sobre o sentido de estar no mundo . Ali, Spazinho — como é apelidado — escreve o primeiro poema, encena a primeira peça e amadurece o corpo performático nas apresentações das Manhãs de Primavera, ou mesmo ao dar vida ao jumento de Os Saltimbancos. Entra em contato com matrizes indígenas do território, com expressões afro de afirmação identitária e com múltiplas leituras políticas do mundo. Constrói, assim, memórias e ferramentas que o ajudam a se reconhecer, a desejar transformar o mundo, a inscrever-se na história. É incentivado a escrever sobre sua identidade, a desenhar, a dançar, e ama profundamente tudo isso. Guarda, com carinho, as aulas e os encontros com professores e professoras como: Radamés, Railda, Rita e Raquel Prudente, Jorge Batista e Elbert.
Mas, à medida que cresce, conhece também as durezas do espaço escolar. O bullying por ser gay, o isolamento, as violências por não corresponder aos padrões de masculinidade, por caminhar mais entre as meninas, por preferir a dança ao futebol, por habitar, em seu corpo, outros modos de existir. Ferido pela violência homofóbica, Spartakus se recolhe. Ainda mantém algumas amizades, sobretudo com meninas, mas, com o tempo, mergulha cada vez mais nos estudos e, quase instintivamente, passa a cuidar de sua autoestima, ancorando-se nas pequenas vitórias e nas possibilidades de expressão encontradas nos concursos de desenho e de cartas, nas dimensões terapêuticas da arte e nas reflexões críticas das redações.
Guerrilheiro contestador, enfrenta a dor, como lembra Raquel em carta escrita por ocasião de sua despedida da escola, fazendo da arte, desde cedo, um território de cura.
Concluída a educação fundamental, Spartakus segue para o Colégio Sistema. E o que encontra é um choque. Trata-se, segundo suas próprias palavras, de um ambiente muito mais voltado à formação de um “profissional de sucesso” do que de um ser humano em suas múltiplas dimensões. Imersa na lógica da competição capitalista, a escola privada, pressionada por resultados e por suas próprias demandas financeiras, transforma, em parte, gente em número de matrícula e, sob o signo de uma suposta meritocracia, busca afirmar-se pelo volume de aprovações em vestibulares. Nesse contexto, os estudantes são tensionados a viver sob o ritmo intenso da resolução de questões e da exposição em campanhas de sucesso. Dinâmica que, em Spartakus, produz um sentimento profundo de angústia.
Se na Curumim, mesmo nos momentos de isolamento, ele encontrava nas redações , na strong> filosofia e nas strong> artes caminhos para expressar a consciência crítica, [01] [02] no Sistema essas brechas parecem rarear. E, como se não bastasse, intensifica-se a exposição a um bullying ainda mais agressivo. Como sobreviver a esse ambiente? Como sustentar-se quando os espaços de escuta e criação se estreitam? É nesse território de tensão que sua travessia se reinventa, mais uma vez.
Além do cuidado de pessoas da escola, como Célia Fonseca, é no sentimento de pertença ao coletivo, na competição em equipe e nas possibilidades de expressão artística oferecidas pela gincana do Colégio Sistema, com seus desfiles e danças, que Spartakus encontra algum sentido para seguir. Nosso jovem passa a nutrir esse pertencimento na luta pela equipe Tatu. [01] [02] A vitória torna-se uma chance de afirmar, para si mesmo, que tem valor, como antes fizera na Curumim. Ainda assim, mesmo atravessado pela violência, professoras como a poeta e performer Lorenza Mucida recordam sua capacidade de, em meio à dor, cultivar gestos de delicadeza, verdadeiros jardins de cuidado que devolvem fôlego à vida dos outros. Lorenza, inclusive, guarda até hoje os manequins que ele lhe presenteou, recriações sensíveis de suas performances em sala de aula. Seriam essas as sintonias suaves das redes que o sustentam?
Nesse contexto competitivo das gincanas, Spartakus Santiago Fernandes Francisco torna-se uma das pessoas responsáveis pela produção de vídeos, especializando-se na escrita de roteiros, na edição, na gravação e na escolha precisa das trilhas sonoras. É assim que, a partir de uma proposta do professor de Geometria, Enexandro Nobre, que desafiava os alunos a ensinar conteúdos em formato livre, Spartakus, ao lado de Mariana Rosas, Paula Lavinsky e Andresa Santana, produz aquele que viria a ser seu primeiro grande sucesso na internet: equipe Tatu. uma paródia educativa de Telephone, que hoje acumula mais de meio milhão de visualizações.
A escolha da canção não se dá ao acaso. Carrega, também, um gesto de afirmação, uma vez que Spartakus, atravessado pela violência homofóbica que sofria, transforma sua criação em resposta insurgente contra a heteronormatividade que o sufocava. Nesse movimento, a música pop, especialmente as obras de artistas como Beyoncé e Lady Gaga, assume papel fundamental na elaboração subjetiva de jovens gays, oferecendo não apenas identificação, mas também repertórios simbólicos de força, liberdade e autoafirmação. É nesse campo sensível que Spartakus encontra linguagem para existir e resistir.
O Vídeo ganha projeção nacional, alcança a página inicial do YouTube e, após ser compartilhado pelo blog Não Salvo, então de grande audiência, abre caminhos inesperados. Ele e suas colegas passam a receber convites de diferentes canais de televisão, sendo entrevistados, inclusive, no Jornal da Globo e no Programa da Eliana, ambos em rede nacional. Esse reconhecimento acende, em Spartakus, o desejo de trabalhar com criatividade e de ultrapassar os limites regionais. Ainda assim, sobre ele pairava a expectativa de que seguisse o curso de Direito, especialmente pela centralidade e pelo prestígio que a formação jurídica da UESC ocupava no imaginário social da região.
Tendo como referências os colegas de escola Camila Camuso e Marcelinho Marcelinho (Marcelo Mucida), ex-integrantes da equipe Tatu que já viviam no Rio de Janeiro e estudavam na UFF, Spartakus abandona o projeto de seguir a carreira jurídica e decide ingressar na universidade, cursando Publicidade e Comunicação Social. Apesar do grande sucesso de seu vídeo, ainda não se reconhece como youtuber, nem enxerga o YouTube como profissão ou possibilidade de sustento. Seu horizonte estava voltado para o trabalho criativo no mercado publicitário do Sudeste. Chega, então, ao Rio de Janeiro movido pelo desejo de se reinventar, de começar do zero. Para ele, começar do zero significava também se ajustar, enquadrar-se, tornar-se aceitável. Performar uma masculinidade heteronormativa, ouvir outras músicas, desejar outros corpos, afastar-se de si. Sem Lady Gaga, sem Beyoncé...
Nesse processo, a violência estrutural, essa herança colonial que insiste em atravessar a experiência da negritude, se manifesta como força de negação. Negação do corpo, da ancestralidade, das conexões profundas com a natureza e com a própria história. Em Spartakus, essa tensão se intensifica ao exigir também a negação de sua sexualidade. É assim que, no silêncio dessa travessia, instala-se uma forma de automutilação subjetiva, que o acompanha por cerca de um ano no Rio de Janeiro. Um tempo de distanciamento de si, em que existir parecia depender, dolorosamente, de deixar de ser.
Ainda assim, é nesse primeiro ano que nosso insurgente começa a colher frutos. Já no primeiro período da faculdade, Spartakus conquista o segundo lugar no prêmio da Associação Brasileira de Propaganda, com uma peça criada para a revista Coquetel, e participa, no mesmo período, do Festival Brasileiro de Publicidade, em Búzios. Ao final desse ciclo inicial, instigado por um amigo a refletir se já havia realizado ao menos 25% do que desejava, percebe que, embora tenha acertado em alguns caminhos, em outras encruzilhadas da vida tomara rumos que o afastavam de si. É então que decide se reencontrar. Abraçar-se, curar-se, permitir-se ser mais livre, assumir-se como homem gay, experimentar o desejo, viver o afeto, ser feliz.
No segundo ano de faculdade, inicia sua trajetória profissional com estágios em pequenas empresas, passando pelo núcleo de marketing da própria universidade e por uma agência em Niterói, até chegar à Rede Globo. Ali, apenas compartilhar o mesmo espaço com Hans Donner, criador da icônica abertura do Fantástico, já lhe parecia uma vitória. A emissora, com seu vasto capital simbólico e material, ocupa lugar central no imaginário de diferentes gerações e territórios, sendo a maior empresa de comunicação do Sul Global e articulando-se a amplas redes de poder político e econômico no país. Integrar esse circuito e inscrever-se em seu quadro significava ampliar horizontes, especialmente para um jovem estudante de publicidade. Spartakus não apenas estagia, é efetivado e permanece por mais de dois anos na emissora como assistente de direção de arte. Uma conquista expressiva, marco importante em sua trajetória.
Morar em Copacabana, em um apartamento próprio, mobiliado a seu gosto; acordar e seguir de bicicleta para o trabalho, com a praia se abrindo diante dos olhos; acompanhar gravações, circular entre artistas, registrar momentos ao lado de nomes como Didi, Suzana Vieira e Fátima Bernardes. Tudo isso deslumbra e faz Spartakus feliz por um tempo. Com o passar dos dias, porém, algo se desloca. Percebe-se, muitas vezes, criando e dizendo o que a empresa deseja, e esse desejo nem sempre coincide com o seu. Surge, então, a sensação de aprisionamento, mais um dilema, mais uma encruzilhada: a liberdade ou o canto seguro numa gaiola de ouro?
O processo de impeachment de Dilma Rousseff intensifica suas inquietações, sobretudo por não se reconhecer no jornalismo praticado pela emissora, que, a seus olhos, mais contribuía para o golpe do que dialogava com seu posicionamento político. É nesse contexto que passa a vislumbrar outras rotas possíveis. Inspirado pela trajetória de um colega que ocupara anteriormente seu cargo na Rede Globo e que, após estudar na Miami Ad School, seguiu para trabalhar em Nova York. Spartakus começa a imaginar novos voos.
Ao conquistar uma bolsa de estudos, com parte dos custos custeada pela Rede Globo, para cursar, por dois anos, a Miami Ad School, Spartakus passa a dedicar-se intensamente e, como resultado, acumula reconhecimentos. Recebe prêmios como melhor aluno do semestre, conquista por duas vezes o Best of Show e obtém diversos troféus por seu desempenho em diferentes disciplinas. Sua determinação estava diretamente ligada ao desejo de chegar a Nova York com respaldo, bagagem e valor simbólico. Nesse percurso, vence também o Wave Festival, ampliando sua atuação no campo publicitário. Isso era, para ele, a construção de um passaporte possível para o trabalho fora do país.
Para viabilizar esse projeto, era preciso economizar. Spartakus entrega o apartamento em Copacabana e passa a dividir um quarto com uma amiga. Sua rotina torna-se extenuante. Estuda das 19h às 22h e, sem recursos para adquirir um computador de alta performance, retorna à Globo, onde, sob o pretexto de estar de serviço, utiliza os equipamentos da emissora. Trabalha, em média, das 23h às 4h da manhã; depois, com um pequeno travesseiro, recolhe-se para dormir em uma sala de reuniões. Durante cerca de três meses, vive assim, permanecendo na emissora e indo para casa apenas uma vez por semana, para lavar roupas. Nesse cotidiano limítrofe, encontra, contudo, gestos de solidariedade. Faxineiras, porteiros e vigias, cientes da situação, silenciosamente o amparam, compondo uma rede de cuidado que também sustenta sua travessia.
Enfim, arruma a mala e ruma para Nova York, o grande epicentro do capitalismo contemporâneo, onde é aceito como estagiário em uma das mais prestigiadas agências de publicidade, marketing e relações públicas do mundo, a Ogilvy. Leva consigo prêmios, roupas, materiais de trabalho. Mas, sobretudo, carrega o peso invisível do burnout. Spartakus chega exausto, adoecido pelo excesso de trabalho e pelo esforço contínuo. Como um personagem de O Diabo Veste Prada, vê secar a fonte: já não há energia para criar. Permanece por três meses na cidade. Faz amigos, experimenta a vida, respira outros ares, mas não consegue entregar o suficiente para ser efetivado.
Tudo errado, tudo certo. O pássaro foi morto ontem por uma pedra que só seria lançada hoje. Os caminhos já estavam abertos, faltava apenas que Spartakus Santiago os enxergasse. De volta ao Brasil, ainda sem emprego, trazia consigo uma semente plantada tempos antes. Nas madrugadas em que permanecia na Rede Globo, buscava, vez ou outra, refrescar a mente navegando na internet; foi assim que se deparou com os debates em torno do clipe “Vai Malandra”, de Anitta, especialmente sobre o uso de tranças e as discussões acerca de apropriação cultural. Munido de sua experiência na criação de conteúdos virais e de uma compreensão amadurecida sobre questões étnico-raciais, como colorismo e apropriação cultural, produz um vídeo para intervir no debate. O resultado é imediato, mais de quatro milhões de visualizações e um crescimento vertiginoso de seguidores.
A partir daí, reconhece um caminho possível. Articular estudo, reflexão crítica, didática e potência comunicativa para produzir conteúdos de utilidade pública. Comentando notícias, participa das lutas LGBTQIAPN+ e enfrenta temas raciais sensíveis, contribuindo para a ampliação dos horizontes de liberdade. Assim, em 2017, com desdobramentos ainda mais intensos em 2018, nasce um novo trabalho: o de influenciador digital. Com ele, vêm também os reconhecimentos. Torna-se um dos criadores negros selecionados para financiamento pelo YouTube, recebe o prêmio Builder 2018, concedido pela Youpix, conquista a placa de 100 mil inscritos e alcança ampla visibilidade. Mas, em um contexto de ascensão da extrema direita, a notoriedade traz consigo outras faces. Passa a ser alvo de ataques de haters extremistas, manifestações racistas e disseminação de fake News. Violências que, ainda assim, não interrompem sua travessia.
Spartakus sobe ao palanque ao lado de Fernando Haddad e Manuela D’Ávila, [01] [Fonte] , apoiando aqueles que acreditava poderem fortalecer suas pautas e lutas. Com a eleição de Jair Bolsonaro, no entanto, vê-se lançado ao centro de uma onda de ódio. Sua imagem é distorcida, passando a ser retratado como extremista, como alguém que odiaria pessoas brancas. Seu nome alcança os trending topics do Twitter, mas sob o peso de uma crise de imagem. E, então, o medo se instala. Quais olhares o atravessam na rua? Em quem confiar ao sair de casa? Ansiedade, ataques de pânico e depressão passam a ocupar sua mente.
Diante desse cenário, reinventa sua estratégia de luta. Afasta-se das disputas mais imediatas e passa a produzir conteúdos de caráter mais educativo, ancorados na cultura pop. Os temas permanecem, mas a abordagem se transforma; menos centrada em notícias e polêmicas e mais atravessada pela música, pelos videoclipes, pelas linguagens do entretenimento. Assim, amplia sua atuação de modo mais saudável, afirmando-se como ativista e comunicador de cultura pop, até tornar-se referência no país. Falar das artistas que, um dia, estiveram associadas à sua rejeição na infância revela-se, inclusive, um gesto terapêutico, e abre novas possibilidades profissionais durante a pandemia.
É nesse contexto que Spartakus se torna apresentador do Canal Futura e da MTV Brasil. Pela primeira vez, vê na tela um VJ negro e gay, e esse VJ é ele. No pós-pandemia, sua presença se consolida. Entrega o prêmio de álbum do ano a Pabllo Vittar, cobre o MTV Video Music Awards e entrevista Anitta no tapete vermelho, no mesmo ano em que a artista conquista o prêmio de melhor artista latina e se apresenta no palco principal. É a imagem que se reinscreve, não mais atravessada pelo silenciamento, mas afirmada como presença, voz e representação.
Consolidam-se, então, as frentes de atuação de Spartakus: publicitário, apresentador e influenciador digital. Mas uma nova inflexão se impõe, a transformação na lógica das redes sociais e de seus algoritmos. A exigência por conteúdos capazes de atrair mais público, gerar monetização e sustentar a circulação de anúncios torna-se regra; e, com ela, a necessidade de produzir cada vez mais. Rareia o tempo para pesquisas aprofundadas, a criação passa a responder à urgência. E, mais uma vez, instala-se a sensação de prisão. Sendo esse o seu ganha-pão, o ciclo de exaustão retorna, acompanhado por questões de rejeição e autoestima, já que o bem-estar parece, agora, condicionado ao número de curtidas que cada vídeo alcança. A criatividade entra novamente em crise e, com a saúde fragilizada, torna-se necessário buscar cuidado. A terapia como gesto de retomada de si.
A terapia, conduzida com sua psicóloga, abre para Spartakus Santiago Fernandes Francisco o horizonte da criação musical. Agora, sem as amarras da cobrança, a música o conduz a um território de cura, lugar de enfrentamento da autorrejeição, de reencontro com a potência artística e de reinvenção de si. Nesse movimento, passa a compor não apenas canções, mas um verdadeiro documento sensível, no qual revisita suas raízes territoriais e revela, com maior profundidade, quem é. Ao longo de três anos, em colaboração com amigos de Itabuna, como Thierry Brito, Augusto Santos, Raone Calixto, André Venceslau e Rick Trindade, e com artistas de diferentes partes do Brasil, constrói uma obra que incorpora sua cultura, a espiritualidade e as reverências a entidades como Obaluaê, Exu, Oxóssi, Oxalá e Ogum.
Desse processo, nasce o álbum visual intitulado Livre Com Fiança, que já recebe reconhecimento internacional ao conquistar menção honrosa na categoria de Melhor Clipe e o prêmio de Melhor Diretor Estreante no Independent Shorts Awards, em Los Angeles, competindo com cineastas norte-americanos. A obra condensa e entrelaça suas múltiplas expressões — cantor, poeta, comunicador — e ainda revela outra dimensão de sua existência: a de cartomante. Sim, cartomante. Spartakus é múltiplo; sua trajetória, uma constelação em movimento.
Cartas lançadas, destino posto à mesa. Spartakus, em sua travessia de multiartista, nos ensina a necessidade de nos respeitarmos cada vez mais, de compreendermos que a vida pode, e deve, ser mais leve para todos. Não é preciso provar incessantemente quem somos, nem multiplicar performances para alcançar aceitação. Os caminhos da liberdade, lembra-nos, não devem conduzir ao adoecimento, mas à cura. Guarda, por isso, profunda gratidão à amiga Camila Brito, que o conduziu a um retiro espiritual transformador, onde encontrou, enfim, um lugar de paz e abertura.
A partir dessa experiência, reconecta-se com a espiritualidade afro-brasileira, reconhecendo o sagrado que pulsa no mundo vivo. Nas águas do mar, na lágrima salgada onde habita Iemanjá, nos búzios lançados sob os desígnios de Oxumaré. Se, no início, um nome foi confiado ao mistério, plantado como semente na terra e entregue ao tempo, agora é a própria vida que floresce como resposta. Entre telas, palcos, palavras e silêncios, Spartakus aprende, e nos ensina, que criar é também curar, que existir, em sua plenitude, pode ser um gesto radical de amor. Guiado pelos ventos da ancestralidade e pelos sopros do sagrado que habitam o mundo, segue em movimento, fazendo de si caminho, de sua arte, oferenda, e de sua presença, um convite. Viver, enfim, com mais verdade, mais leveza e mais liberdade. Arroboboi!