Ruy Póvoas

Ruy do Carmo Póvoas: o guardião da memória

Quais são as margens de um rio que carrega, em si, a memória de continentes inteiros? Como um homem se faz ponte entre o rigor da academia e o mistério sagrado do axé? Ruy do Carmo Póvoas não é apenas um nome na historiografia baiana, é guardião cujo destino se traçou entre as águas de Ilhéus e alá sagrado de Oxalá.

Nascido em 13 de maio de 1943, no bairro do Pontal, em Ilhéus, Ruy do Carmo Póvoas atravessa as décadas como um mestre que soube decifrar os segredos do tempo. Aos 82 anos, completados em 2025, sua trajetória testemunha que a ancestralidade não é conceito estático, encerrado em museus, mas força viva, que se renova a cada amanhecer, no Ilê Axé Ijexá Orixá Olufon.

Memórias do feminino: elos matriarcais tecidos no tempo

Para compreender a lucidez e o axé de Ruy, aos 82 anos, é preciso voltar o olhar às mulheres que o sustentaram. Na obra Mejigã e o contexto da escravidão, ele nos revela a força de sua mãe e de sua tataravó, figuras que constituíram seu primeiro “terreiro”. Sua mãe, mulher negra de têmpera firme, foi quem assegurou a preservação de uma identidade que o mundo exterior insistia em apagar. A tataravó, por sua vez, encarnava a ligação direta com a África sequestrada, mas jamais esquecida. Ambas eram detentoras de uma sabedoria que não se inscrevia nos livros: o conhecimento das ervas, o compasso das águas e a intuição de que a espiritualidade de Ruy era uma herança.

A tataavó, por sua vez, encarnava a ligação direta com a África sequestrada, mas jamais esquecida. Ambas eram detentoras de uma sabedoria que não se inscrevia nos livros: o conhecimento das ervas, o compasso das águas e a intuição de que a espiritualidade de Ruy era uma herança.

Quando um médico da época de sua adolescência, sob a lente estreita do preconceito de seu tempo, o rotulou como esquizofrênico, em razão de sua mediunidade aflorada, foram os saberes ancestrais das mulheres de sua família materna que se ergueram como escudo. Elas sabiam que o que Ruy carregava não era patologia, mas um Odù (destino) que precisava de chão e céu para se manifestar.

A preservação desses saberes, modos de vida e de sensibilidade, fez-se na resistência. Na travessia, na morada forçada de Mejigã no Engenho de Santana, na lida do plantio empreendida pela família materna, em busca de uma vida em liberdade. Fez-se, ainda, no cultivo das roças de cacau, à sombra das matas do Macuco, no Camacã; no enfrentamento às forças do Estado, quando da construção de estradas que, ao atravessarem aquelas terras, cortavam as roças e violentavam o trabalho; e, por fim, na vida de sua mãe, em comunhão com as mais velhas, no Pontal, em Ilhéus

Assim, das brenhas das matas à boca do mar, no Pontal, recordavam-se e cultuavam-se os saberes vindos da boca dos avós, da voz dos desmedidos. Os ritos e os mitos, os gritos e os ditos. Tudo isso se tecia em encontros e trocas com tupiniquins, maxacalis, pataxós, tupinambás, geges, nagôs, bantus, haussás, dos vindos de Angola e do Congo. Uma vasta diversidade de nações que compõem nossa territorialidade e que têm, nos ijexás, parte primordial de nossa arquitetura popular.

Ruy é fruto do encontro — muitas vezes tenso e desigual — que fundou nossa nação. Filho de uma mulher negra, descendente de pessoas escravizadas, e de um homem branco, cacauicultor, sua própria existência corporifica as encruzilhadas sociais do Sul da Bahia. Essa herança dual, longe de se impor como silêncio, tornou-se o motor de sua busca por identidade e por justiça histórica.

Como já dito, trata-se de uma história que remonta ao bairro do Pontal, em Ilhéus; antes dele, à mata do Camacã; e, antes desta, ao Engenho de Santana. Engenho Real, como era chamado, foi propriedade do terceiro governador-geral do Brasil, Mem de Sá, e, posteriormente, de outros senhores, entre eles os jesuítas. Entre as pessoas sequestradas e escravizadas na primeira metade do século XIX, chegou uma mulher negra que pertencia à nobreza religiosa, sacerdotisa de Oxum, do povo ijexá. No Engenho de Santana, ela engravidou de um homem negro, de origem angolana, e deu à luz sua única filha, Maria Figueiredo. Maria Figueiredo casou-se com Antônio do Carmo e, juntos, tiveram seis filhos; entre eles, Ulisses do Carmo. Ulisses, por sua vez, uniu-se a Hermosa, com quem teve vinte e três filhos. Dentre estes, estava Maria Mercês do Carmo, a mãe de nosso babalorixá.

Ruy descreve sua família materna como gente de coragem, que precisou lutar com o próprio corpo para não ser expulsa de suas terras. O Camacã, naquele período, era zona de fronteira agrícola, onde a lei se impunha pelo calibre das armas. Muitas dessas batalhas resultaram em perdas. O fato de Ruy ter nascido em Ilhéus e de se ter estabelecido em Itabuna é, em parte, consequência desse deslocamento forçado. As famílias que sobreviviam às chacinas no Camacã buscavam refúgio nos centros urbanos maiores, onde tentavam recomeçar a vida do zero. Nesse contexto, o sobrenome Carmo tornou-se símbolo de resistência, marca daqueles que não se curvaram facilmente. Ruy traz essa “fúria” em sua constituição mais íntima, a mesma força que o fez enfrentar a fome e o câncer.

Na memória de Ruy, a família de sua mãe — os Carmo — figura, ao mesmo tempo, como protagonista e vítima das chamadas “lutas de terra” no território que hoje corresponde a Camacã. Esse sobrenome carrega o peso das emboscadas, do jaguncismo e da resistência de famílias negras e mestiças que buscavam manter suas roças diante da ganância dos grandes coronéis do cacau. Por sua memória, importa recordar alguns acontecimentos familiares marcantes, como o derramamento de sangue ocorrido nas terras de sua linhagem materna, em 8 de dezembro de 1900, na estrada que hoje liga Itabuna a Buerarema. À época, o governo da Província da Bahia enviara uma força-tarefa, capitaneada pelo engenheiro Agenor Póvoas, para abrir a estrada Tabocas–Macuco, com o intuito de escoar a produção cacaueira. Até então, essa produção seguia no lombo de animais até o Banco da Vitória e, de lá, as sacas de cacau desciam em canoas rumo ao porto de Ilhéus. Sob a pressão dos grandes coronéis, o governo provincial determinou a abertura da estrada, inscrevendo, no território e nos corpos, mais um capítulo de conflito e violência.

O traçado da estrada cortaria diversas pequenas posses, pertencentes, em sua maioria, ao povo dos Carmo, descendentes de Mejigã. Ruy conta que um porta-voz da família partiu, no dia de Oxum, feriado de Nossa Senhora da Conceição, para dialogar com o engenheiro responsável pela obra. Este, reuniu a jagunçada, mandou amarrar o emissário dos descendentes de Mejigã e o fez açoitar até que se quebrassem três varas de goiabeira. O homem regressou arrastando-se, vomitando sangue, até o acampamento dos Carmo, onde se encontrava a família de negros filhos da liberdade, em luta contra a herança da escravidão e da senzala, na tentativa de construir suas próprias vidas. Entre eles estava o tio-avô de Ruy, Elpídio do Carmo, homem descrito como destemido, que deixava crescer as unhas dos pés para cortar a testa dos policiais. Junto aos parentes, se levantou para a vingança, colocando à frente João do Carmo, tido como o mais feroz de todos. O primeiro tiro foi desferido contra o engenheiro Agenor Póvoas; em seguida, ele foi agarrado pelos cabelos, teve a cabeça decepada e lançada ao mato. Daquele episódio, restou apenas uma sobrevivente: uma criança, de nome José Pereira da Costa, uma das poucas testemunhas do ocorrido.

O governo da Bahia enviou, então, uma outra força de cinquenta homens para capturar os Carmo, que se encontravam aquilombados nas matas de Camacã. Permaneceram ali por algum tempo. Ao deixarem o esconderijo, contudo, foram presos e levados a julgamento por um júri popular, que não conseguiu determinar a autoria das mortes. Sem a definição de culpados, todos foram absolvidos. Entretanto, o juiz, corrompido, segundo comentários da época, inverteu a sentença e condenou-os a trinta anos de reclusão, a serem cumpridos na Penitenciária da Bahia.

Foi então que um advogado, Júlio Virgílio, ao tomar conhecimento do caso, vindo do Rio de Janeiro, dirigiu-se à penitenciária, onde ouviu os Carmo e lhes propôs um acordo: em troca das posses de terra da família, se empenharia em anular o julgamento e obter sua absolvição. Cedidas as terras, o processo retornou a júri popular e, mais uma vez, os réus foram absolvidos. Desta vez, com a sentença corretamente proclamada pelo juiz, o que lhes garantiu a liberdade. Ainda assim, pairava sobre eles uma lei mais antiga e implacável que a do Estado: sangue derramado se paga com sangue derramado.

Temendo a morte, os Carmo embrenharam-se nas matas de Camacã, buscando não ser encontrados pelos Póvoas, família rica, proprietária de vastas extensões de cacau, movida pelo desejo de vingança. A narrativa adquire contornos ainda mais complexos quando se revela que o engenheiro assassinado, Agenor Póvoas, era irmão de Otávio Portela Póvoas, avô de nosso babalorixá Ruy do Carmo Póvoas, que viria a ter, inclusive, um pai chamado Agenor, em memória desse tio-avô por parte paterna.

A mãe de Ruy descende dessa geração marcada pela fuga e pela resistência. Sua história tem início num gesto que mistura desespero e coragem. Ao escapar da violência agrária que dizimava a família Carmo no Camacã, buscou, no litoral, o anonimato que lhe garantiria a sobrevivência. Chegou ao Pontal, em Ilhéus, como quem foge de uma guerra interna, encontrando abrigo entre uma família de feirantes.

Por volta dos trinta anos, deixou as matas de Camacã, adotando o nome Maria Mercês e ocultando o sobrenome Carmo. A família que a acolheu era formada por gente de terreiro, de origem ijexá, um núcleo de mulheres liderado por Geralda Peixe Marinho e por Gustavo de Jesus, conhecido como Xibeque. Foi uma delas quem lhe abriu caminho para o trabalho como cozinheira na Fazenda Braço do Norte, a serviço de Dona Crezus, de Seu Otávio e de seus filhos. Com o passar dos anos, Maria Mercês conquistou a confiança da família e o respeito de todos, por seus dotes culinários, que também eram, à sua maneira, expressão de memória e de cuidado.

No dia 24 de agosto de 1942, cessaram os trabalhos na fazenda. Toda a família seguiu para Ilhéus, instalando-se no palacete da Rua Coronel Paiva, n.º 79, à exceção de Agenor, que permaneceu. Ruy conta que, nesse intervalo, um cisco caiu no olho de Agenor. Ao pedir que Maria Mercês soprasse para retirá-lo, o destino já se anunciava. Antes mesmo que o incômodo passasse, sua mãe carregava, no ventre, a semente de sua própria história.

O desespero espraiou-se. Negra, filha dos Carmo, ela se via grávida de um homem branco, coronel do cacau, pertencente a uma família inimiga. Decidiu, ainda assim, contar-lhe a verdade. Agenor quase sucumbiu ao impacto. Temia que ela fosse morta, caso o amor se convertesse em ódio, e que ele próprio fosse expulso de seu meio. Diante disso, Maria Mercês retornou à casa das feirantes, buscando abrigo e proteção.

Junto à família, foram convocadas, por Maria Gustavo de Jesus (Mãe Velha), Detinha de Iansã, Nice de Nanã, Olga de Omolu e Geralda de Peixe Marinho. Sob a força da incorporação de Maria Gustavo, manifestada em Oxalá, ouviram, da divindade, as palavras endereçadas a Maria Mercês: “Você está grávida de um filho homem. Esse menino é minha cabeça; ele vem para juntar a herança de seus antepassados, hoje espalhada. Na hora que ele nascer, eu volto para receber ele. Prepare isto, isso e aquilo...”. O resto da fala do santo permanece no segredo, preceito do Candomblé.

No dia do nascimento de Ruy, às cinco horas da tarde, Maria Mercês começou a sentir as dores do parto. Enquanto aguardava, era cuidada pelas mais velhas, com chás. Às sete horas da noite, Oxalá, manifestado em Mãe Velha, ergueu a cabeça e perguntou: “Que horas são no tempo dos homens? Vão chamar Amada”, que era parteira, cabeça de Iansã, mãe de inúmeras gerações. O encarregado de chamá-la foi um menino chamado João Mata Onça. Amada chegou e, à porta da casa, Iansã nela se manifestou. Iansã junto com Oxalá fizeram o parto. Quando Mãe Velha tornou a si, com a criança e a placenta ainda ensanguentada em seu colo, gritou: “Tirem esse menino de mim! Tirem esse menino de mim!” Antes de se retirar, Oxalá já havia dito à mãe de Ruy que guardasse todos os preceitos por ele e que, na idade certa, ele próprio o procuraria.

A infância: da porteira para fora

Durante a gravidez, Maria Mercês tornou-se asmática, doença que se dissiparia no momento do parto. Ruy, por sua vez, carregará a asma do nascimento até os vinte e três anos. A enfermidade exigia cuidados redobrados, pois era tão alérgico que mal podia lidar com os arfares do mundo exterior. Ainda assim, “comendo urubu sem tempero”, essa criança cresce e guarda a memória de um Pontal fantástico. Conserva lembranças de ruas tomadas pelo capim, de árvores abundantes, da praia larga e imensa, onde era preciso sapatear para que o siri não mordesseos pés de quem adentrava as águas. Ali cresceu, junto ao irmão Reinaldo Póvoas, catando aratus e siris com uma pelanca de carne, para se alimentar.

Recorda o mar recuado no Morro de Pernambuco, vidrilhando em prata nas noites, onde, em tempos de maré grande, “a pobreza comia lagosta”, de tantas que havia. Lembra também de um território coberto por árvores frutíferas, estendendo-se do Pontal ao Cururupe, abastecendo toda a população, e da água cristalina que brotava do chão, no Morro de Pernambuco, onde todos enchiam a cumbuca para beber. Era um lugar de folclore riquíssimo, mágico, de beleza física encantadora e de imaginário vasto. A maioria da população era católica, e Ruy foi coroinha; junto ao irmão mais novo, auxiliava o padre nas celebrações da missa, tudo em latim.

O pai de Ruy, seis meses após o nascimento do menino, visitou sua mãe; dessa visita, nasceu outro filho, e ele tornou a partir. Quando regressou novamente, o novo filho já contava oito meses de vida. Tempos depois, chegou com uma canoa carregada de mantimentos, alugou uma casa para Maria Mercês e passou a visitá-la com regularidade, ora de mês em mês, ora de quinze em quinze dias, até assumi-la definitivamente como sua companheira.

Ruy cresceu vizinho a personagens emblemáticos. João Morgão, de quem se dizia virar lobisomem; Otacílio Tricoline, que se vestia com couro de bezerro para entrar na casa da amante, uma mulher casada; e o feiticeiro Sarapião, marido de Ester, que cobrava pela morte dos desafetos de quem lhe pagasse. Conta-se que, após sua morte, Sarapião passou a vagar pelo cemitério, assombrando a população, até que uma procissão de velas acesas, convocada pelo padre Frederico Meier, libertou o lugar de sua presença. A primeira a ouvir os urros de Sarapião foi uma lavadeira chamada Tapuia que, tomada de susto, lançou a trouxa no mato e correu até a casa de Albertina, onde caiu sem fôlego; só se restabelecendo depois de aspirar água de colônia Regina.

O ensinamento vindo do pai era sistemático, racionalizado, com horários e conteúdos previamente delimitados; o da mãe, ao contrário, era eventual, fluido, tecido na natureza do momento, enriquecido por múltiplas expressões da linguagem, repleto de provérbios, de fundamentos éticos e morais, manifestos na música e na teatralidade do cotidiano. É a partir desses hábitos culturais, que lhe pareciam, e eram, banais, naturais, cotidianos, que Ruy, ainda menino, passa a ouvir as conversas das tias com a mãe, na casa de Tia Jovanina, durante os afazeres domésticos; a observar os cuidados com as ervas; a escutar cantos e danças; a dialogar com os orixás incorporados. Nesse entrelaçar de experiências, vai se formando como guardião da memória e da história de seu povo. Dotado de notável capacidade de reter o que via e ouvia, Ruy torna-se um cajado raro, símbolo da vitória do povo negro, frente à violência colonialista do supremacismo branco. Uma luta travada no campo da memória e da história.

Para tanto, precisou aprender sobre resistência, pois via e vivia, fora e dentro de si, dois mundos em choque. Sentia, na convivência com o pai e com a mãe, o peso dos aprendizados e das cargas históricas, sociais, econômicas e culturais que o atravessavam. Por pouco não emborcava, ao tentar equilibrar-se entre esses dois mares em tensão.

Ruy quase morreu algumas vezes. Numa delas, afogou-se e conseguiu agarrar-se a um pilar da antiga Ponte de Caribé, no Pontal, tomado por ostras, que lhe cortaram a pele e o fizeram perder muito sangue; foi salvo por primo Póvoas, de nome Otávio, apelidado de Portela. Aos treze anos, adoeceu de tuberculose, enfermidade que, à época, equivalia quase a uma sentença de morte. Afastavam-se todos, e a casa ficava marcada pelo estigma.

Cuidado pela mãe, em um quarto isolado, entre remédios, alimentos e injeções, encontrou na leitura sua única saída. Leu a Bíblia seis vezes. E, da leitura, nasceram dúvidas: por que a necessidade de uma costela para criar a mulher, se com o homem não houve? Para que Deus procurou Adão, se tudo sabe? Por que os cristãos já não erguem cobras de bronze, como na narrativa de Javé, colocadas sobre um mastro para curar que fosse vítima de serpentes peçonhentas?

Ele ouvia a mitologia nagô e se encantava com a ausência de inferno, de paraíso e de culpa original, em nítido contraste com as ideias cristãs. O que amadurece, em si, como crença é a noção de que há uma essência, uma centelha divina que não se confunde com o corpo e que habita outro plano, de onde o governa.

Um mal-estar passou a persegui-lo a toda hora, até mesmo quando se deitava para dormir. Quando Oxalá veio, Ruy resistiu. Gostava do candomblé, achava-o belo; ainda assim, queria ser como os outros. Estudar medicina, morar na França, aproveitar o Brasil no verão. Esse conflito o leva à beira do desatino.

Caminhos da espiritualidade: de boca a ouvido

A maturidade de Ruy Póvoas é um fenômeno que desafia a lógica do descarte intelectual. Enquanto o mundo ocidental, muitas vezes, silencia seus anciãos, Ruy se torna cada vez mais audível. Sua lucidez é cortante e profunda. Escreve e fala com a autoridade de quem não apenas leu os livros, mas viveu as entrelinhas. Ao revisitar suas obras — da análise estrutural de A Linguagem do Candomblé à sensibilidade de suas poesias —, percebe-se que o tempo não desgastou seu pensamento; ao contrário, lapidou-o. Como se Ogum, a ferro e fogo, lhe afiasse o fio da palavra.

Sua mente funciona como um arquivo vivo: nos livros, mantém a precisão terminológica de um linguista que compreende a gramática como ferramenta de libertação. Na poesia, sua produção tardia revela um homem que já não necessita de artifícios para falar do sagrado, fazendo-o com a simplicidade de quem caminha descalço no terreiro.

A aventura espiritual de Ruy, no entanto, quase foi silenciada pelo estigma. Desde cedo, manifestou uma espiritualidade vibrante e aflorada, uma conexão com o invisível que a ciência ocidental da época não sabia traduzir. Na infância, viveu experiências que ele próprio julgava exóticas, como quando convivia com um cachorro que só ele via, à espera, na cadeira da escola; com o tempo, o irmão também passou a vê-lo. Em outra ocasião, deitado em sua cama de cabeceira redonda e colchão de capim, percebeu-se atravessando um túnel e, instantes depois, ao olhar para baixo, viu o próprio corpo estendido, enquanto o cachorro permanecia deitado ao lado de sua sandália, no chão. Pensou, então, que estivesse a caminho do céu.

Essas experiências se intensificaram gradativamente, a ponto de Ruy afirmar que passou a ver através das paredes. Ao tomar conhecimento, a mãe lhe pediu silêncio, temia que o pai o levasse a um hospício. Certo dia, ao sair da escola de Dona Elvira, foi até uma canoa ancorada, próxima à banca de peixe. Enquanto observava o Cristo e o movimento das ondas, viu um homem entrar no mar e caminhar por cima das água, em linha reta, em sua direção. Tomado pelo medo, largou a pasta na canoa e saiu correndo.

Certo dia, em um dos muitos becos que cortavam os quarteirões do Pontal de um lado a outro, Ruy viu, ao fundo, como que projetada, uma grande cena: duas mãos, sem braços, tomando uma folha de bananeira, mergulhando-a numa massa branca e, em seguida, envolvendo-a com cuidado. Ao chegar em casa, repetiu o gesto com uma folha colhida no fundo do quintal, não contou à mãe. Ainda hoje, porém, no Ilê Axé Ijexá Orixá Olufon [01] [02] [03] , o acaçá é preparado dessa forma, ao estilo nagô.

Em outra ocasião, adoeceu e não pôde ir à escola. Sabia que, na prova da professora Silvinha, tiraria zero. Sentou-se, recebeu a folha de papel almaço e deparou-se com vinte questões. Não sabia o que era fagocitose nem diapedese; ainda assim, seu livro de Ciências surgiu aberto à sua frente. O colega Robson denunciou Ruy, afirmando que ele “tinha ares de doido”, folheando o nada. O censor, o diretor e a professora passaram a observá-lo. Contudo, amparado por aquele livro invisível aos demais, respondeu à prova e, ao recebê-la, viu estampada a nota dez, o que levou Robson a lhe pedir desculpas. A última vez que esse livro lhe apareceu foi anos depois, em 1979, quando realizou a prova para o mestrado na UFRJ.

Ruy ficou conhecido como o menino da “mão santa”. Fato que, inclusive, causava assombro em sua própria família materna. Quando alguém sentia dor, bastava que ele pousasse a mão sobre o lugar, e o incômodo cessava. Sabendo disso, Dona Bebeca pediu que o chamassem, pois sua mãe já se encontrava, havia mais de um mês, nesse estado de “morre-não-morre”.

Achando tudo aquilo curioso, Ruy foi prontamente. Sentado em um tamborete, ao lado da velha, chamou-a e perguntou o que sentia. A resposta veio em nagô. Uma voz, vinda de outro plano, traduziu a situação para ele, que não compreendia o que era dito, e pediu que rezasse a oração do Sonho de Nossa Senhora, para que a mulher pudesse partir. Como também não sabia a reza, ouviu da mesma voz: “Eu digo, e você pronuncia.” Ao concluir a oração, a velha morreu. Ruy, então com dez anos, recebeu o acontecimento com estranha leveza. Voltou para casa pulando e gritando: “A mãe de Bebeca morreu!”.

Um dia, após tantas experiências, Ruy, aos catorze anos, sentiu, na casa de uma tia, uma agonia profunda. A tia lhe ofereceu um chá, que não lhe trouxe alívio. No caminho de volta para casa, teve a sensação de que uma lagarta lhe devorava os miolos; pouco a pouco, foi perdendo o controle de si, até rasgar as próprias roupas e sair correndo pela rua. A luz do bairro estava apagada, e ninguém o viu, exceto Mãe Velha, pois ele acabou entrando em sua casa.

Diante de suas percepções sensíveis, Ruy era acolhido e observado pelo lado materno, de matriz afro, sendo resguardado dos olhos de um mundo racista, como forma de preservação. Já no seio da família paterna, imersa no desconhecimento e no preconceito, consolidou-se o diagnóstico de esquizofrenia. Desconfiado de que o filho estivesse “doido”, o pai o levou a um médico especialista.

No dia da consulta, porém, Ruy saiu radiante. Poeta desde sempre, encontrou abrigo na palavra. Quando o psiquiatra lhe disse: “É, meu filho, você é esquizoide”, aquele termo — zumbidor, polissílabo, quase musical no fecho de um verso, como o início de um paó — soou-lhe como elogio. “Esquizoide...” Saiu do consultório com a marca que lhe atribuíam, mas de cabeça erguida, um “doido” orgulhoso, e anunciou, feliz, à mãe: — Mamãe, eu sou esquizoide!
— Que diacho é isso, menino?!
— Acho que é inteligente!

Quem conhece o caminho dos encantos? Por quais estradas tortuosas passou a graça? O que se revela, então, é o chamado dos orixás e o despertar de um babalorixá. Experiência que, sob outra sensibilidade, de viés cientificista e bruto, foi lida como patologia. Essa passagem de sua vida reflete a violência do racismo que, por décadas, tentou hospitalizar ou criminalizar outras formas de sensibilidade, de terapia, a própria fé e a ancestralidade negra. Ruy recorda as injeções e os comprimidos que tomava, e que o deixavam prostrado, por até três dias, sobre o sofá.

Aos 82 anos, a lucidez de Ruy é a resposta definitiva àqueles que, em sua juventude, confundiram sua mediunidade e sua espiritualidade aflorada com esquizofrenia. Onde a psiquiatria colonial viu “desordem”, o tempo revelou uma ordem profunda. Seus livros constituem a prova material dessa sanidade ancestral.

Cada página que escreve ergue-se como um tijolo na reconstrução da autoestima do povo negro sul-baiano, afirmando que o “transe” é conhecimento e que o “santo” é filosofia. Ruy Póvoas é o nosso Baba Agbá (Pai idoso). Sua idade é seu brasão. Ele nos ensina que envelhecer, na tradição de matriz africana, é ascender nos degraus da sabedoria, onde cada ruga se faz verso e cada cabelo branco, lampejo de luz de Oxalá. Sua obra permanece atual, vibrante e necessária, como se o “hoje” fosse o lugar onde ele sempre soube que estaríamos.

A viagem de Orixalá: estradas de fome e fé

Houve um momento em que Ruy precisou escolher entre o conforto herdado e o chamado do invisível e, como quem escuta o sopro dos orixás atravessando o peito, escolheu partir. Não seria o seu destino moldado pelas mãos do pai, cacauicultor, mas pelas forças que regem o axé. Ao anunciar a decisão de seguir os estudos e trilhar o próprio caminho, recebeu um consentimento que também era despedida. O fim da proteção financeira da família.

Partiu com quase nada: dois mil réis no bolso e uma xícara de arroz. A maneira como administrou esse pouco já anunciava a disciplina que o acompanharia por toda a vida. Dividiu o alimento com rigor, reservando metade para o desjejum e metade para a ceia. Mas o gesto mais decisivo daquela partida não foi o que sustentava o corpo, foi o que consagrava o caminho.

Com o dinheiro que lhe restava, Ruy fez uma escolha que revela sua ética espiritual. Comprou uma cerveja. Antes de beber, partilhou-a com Exu, senhor das encruzilhadas. Metade para o orixá que abre os caminhos, metade para o homem que se lançava a percorrê-los. Ali, naquele instante, entregou sua sorte ao mundo.

A partir de então, a privação tornou-se companheira constante. Enfrentou necessidades extremas, chegando a comer talo de capim para enganar a fome que o assolava. Ainda assim, sua decisão permanecia inabalável. Jamais voltou para casa em busca de auxílio. Para Ruy, a fome do corpo podia ser suportada; a outra, a de tornar-se quem estava destinado a ser, mestre, sacerdote, homem livre, era a única que exigia banquete.

Representações do Escondido: da matemática às letras

A trajetória acadêmica de Ruy Póvoas é marcada por episódios em que a inteligência irrompe para além do esperado, como se organizasse, com naturalidade, aquilo que aos outros parecia caos. Em 1965, um acontecimento emblemático, ainda na juventude, já anunciava que seu destino estava entrelaçado à educação.

Em uma aula de Física, cujo conteúdo permanecia incompreensível para quase toda a turma, instalou-se o desespero diante de uma prova iminente. Ao fim da explicação do professor, o silêncio era denso. Foi então que Ruy se levantou. Dirigiu-se ao quadro e, com uma clareza que se tornaria sua marca, não apenas repetiu, mas traduziu e ensinou todo o conteúdo da aula anterior. Sua didática, ao mesmo tempo simples e profunda, chamou a atenção do Professor João Arbage, diretor do Colégio de Aplicação, que, ao presenciar a cena, não hesitou em convidá-lo para assumir a disciplina de Matemática. O gesto, nascido como auxílio aos colegas, desdobrou-se em uma trajetória de quinze anos no ensino das ciências exatas. Desde cedo, Ruy demonstrava possuir uma mente capaz de estruturar o mundo; fosse ele uma equação física ou, mais tarde, a complexa cosmologia dos orixás.

Em 1967, já consolidado como professor de Matemática, Ruy acreditava ter encontrado seu caminho. A lógica dos números lhe parecia destino suficiente, não se via no território das Letras. No entanto, esse mesmo ano lhe reservava uma inflexão decisiva — espiritual e acadêmica —, marcada por uma sincronia que tangencia o mistério.

Enquanto se encontrava recolhido para sua iniciação espiritual, fazendo o santo na casa de Mãe Mariinha em Nazaré das Farinhas, terreiro de nação Ijexá, dois amigos, José Gomes São Mateus e Paulo Índio, como que movidos por forças que ultrapassavam a vontade do próprio Ruy, inscreveram-no, à revelia, no vestibular da Faculdade de Filosofia de Itabuna, para o curso de Letras. Ao saber, reagiu com indignação. Decidiu, então, não estudar. Pretendia ser reprovado e, assim, encerrar aquela intervenção indevida em seu destino.

Mas sua inteligência não se submetia à recusa. Diante da prova, deparou-se com o tema da redação: “Chegará o homem à Lua?”. Nesse instante, fundiram-se o professor de exatas, o iniciado de orixá e o pensador em formação. O texto que escreveu, de rigor argumentativo e força retórica incomuns, conduziu-o a um resultado inesperado: foi aprovado em primeiro lugar.

As Letras, assim, não foram escolhidas por Ruy; foram, antes, um chamado incontornável. Como se o destino lhe exigisse o domínio da palavra para que, mais adiante, pudesse escrever as gramáticas do sagrado que hoje nos orientam. Essa travessia entre campos do saber já se insinuava em sua prática docente. Em uma substituição ocasional de uma professora de Português, sua oratória e domínio da língua novamente surpreenderam. O impacto foi tamanho que os alunos organizaram um abaixo-assinado para que assumisse, de forma permanente, a disciplina.

A partir daí, Ruy ampliou sua atuação. Lecionou em diferentes espaços, em Ilhéus, Itabuna, Almadina, Itapitanga, Coaraci e integrou o corpo docente da FESPI. Posteriormente, consolidou sua trajetória como professor na UESC, da qual é um dos fundadores. Na universidade nascente, Ruy foi Diretor do Departamento de Letras e da Faculdade de Filosofia por duas gestões. Sempre movido por essa rara capacidade de transitar entre o visível e o invisível, entre o número e a palavra, entre o cálculo e o encantamento.

A Fala do Santo: o axé como bússola

Dizer “não” a tudo aquilo que o afastava do orixá foi o gesto que permitiu a Ruy escrever obras como Mejigã e A Linguagem do Candomblé. Se tivesse cedido às pressões externas, talvez fosse apenas um professor brilhante, porém silenciado em relação às próprias raízes. Ao escolher o orixá, tornou-se pleno.

Esse gesto funda também um ensinamento, a pesquisa não é neutra. Ou ela se compromete com a libertação e o fortalecimento do caminho de axé, ou se reduz a ruído, mais um afastamento de si. Ruy escolheu resistir. Transformou o estigma em estudo, a dor em axé.

Graduado em Letras pela Faculdade de Filosofia de Itabuna e mestre em Letras Vernáculas e Doutor Honoris Causa pela UESC, compreendeu que a academia precisava ser atravessada pelo sopro de África. Recusou o lugar do “intelectual de gabinete” e levou o terreiro para a universidade, fazendo do candomblé um campo legítimo de investigação linguística e filosófica. Foi pilar da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), onde, entre outras iniciativas, fundou e dirigiu o Kàwé (Núcleo de Estudos Afro-Baianos Regionais) e também o Laboratório de Redação; ainda assim, sua maior cátedra ergueu-se no Ilê Axé Ijexá Orixá Olufon, em Itabuna.

Ali, não apenas pratica a fé, sistematiza-a como pensamento, preservando o dialeto e os ritos da nação ijexá com uma precisão que une o rigor do pesquisador à devoção do iniciado. Na vida pessoal, essa mesma escolha o conduziu à superação do estigma da “esquizofrenia”, não por meio de remédios que embotavam sua visão, mas pelo aprofundamento no culto, revelando que aquilo que se nomeava como loucura era, em verdade, uma forma de clarividência ainda ilegível para o mundo.

Tal postura ajuda a compreender a lucidez que mantém aos 82 anos. Quando um homem se orienta pelo sagrado, deixa de dissipar energia nas exigências do ego e nas pressões de uma sociedade que cobra produtividade incessante. Passa, então, a viver sob outra medida: a do axé, que organiza, sustenta e ilumina o caminho.

Itan dos mais velhos: o legado da palavra

A poesia de Ruy Póvoas se inscreve como um itan vivo, narrativa que não apenas conta, mas refunda o mundo. Nela, o orixá é presença que atravessa o cotidiano do Sul da Bahia, respirando entre as barcaças de cacau, ecoando nas salas de aula, pulsando nos gestos mais simples da vida.

Ao longo de sua travessia, Ruy nos ensina que a intelectualidade negra não pode se apartar da existência, é compromisso com a vida, com a memória e com o porvir. Sua trajetória afirma, com rigor e encantamento, que ciência e espiritualidade se entrelaçam como fios de um mesmo colar, sustentando uma identidade altiva, enraizada e em movimento.

Sua presença, hoje, é como o fio das contas que mantém o Sul da Bahia ligado ao que foi e ao que ainda pode ser. Guardião da palavra e do axé, Ruy transforma memória em caminho, e caminho em ensinamento. Inscrito em versos imemoriais que dizem:

O Verbo de Olúfon

Onde a ciência viu sombra e o mundo previu o fim,
brotou a fúria da paz no peito do Mejigã.
Ele, que dividiu o arroz da escassez e a cerveja do destino,
bebeu, na fonte do Ijexá, o néctar da própria sanidade.
Não foi loucura o que os outros ouviram,
foi o sopro de Oxalá reclamando
a casa que o esperava há quarenta invernos.
Ruy não é apenas um nome; é a vingança doce de sua mãe.
A fuga de Camacã que se fez trono em Itabuna
e a prova viva de que, sob a bandeira de Oxóssi,
o que passou, passou
— e o que virá é a luz eterna do saber.

E, assim, permanece. Como quem não apenas viveu uma história, mas se fez história. Palavra que não se encerra, mas continua a ser dita, de geração em geração. Epa Babá! Salve o mestre Ruy Póvoas.

Cronologia Literária e Acadêmica

Abaixo, os marcos da produção intelectual de Ruy Póvoas, obras que são ferramentas de cura contra o apagamento da memória afro-brasileira:

Ano Obra Descrição
1989 A Linguagem do Candomblé Obra seminal que analisa os níveis de linguagem no terreiro, unindo linguística e antropologia.
1991 Itan de Orixá Uma coletânea de mitos e narrativas sagradas dos orixás, fundamental para a preservação da tradição oral.
1995 A Fala do Santo Estudo aprofundado sobre a comunicação ritual e a semântica do sagrado.
2004 Da Vida Mágica Ensaios e crônicas que exploram a relação entre o cotidiano e a metafísica africana.
2010 A Memória do Caminho Reflexões autobiográficas e históricas sobre sua trajetória e a fundação do Ilê Axé Ijexá.
2016 Verso e Reverso Obra poética onde o autor explora a dualidade da existência e sua lírica sul-baiana.
"A pesquisa não é neutra: ou ela se compromete com a libertação de um povo e a valorização de sua cultura, ou se reduz a ruído acadêmico."