Exposição território-corpo-memória
A exposição território-corpo-memória propõe um percurso sensível pelas histórias que habitam o sul da Bahia. Mais do que retratar trajetórias individuais, esta mostra evidencia a profunda relação entre pessoas e lugares, revelando como o território se inscreve nos corpos e como a memória germina e se constrói a partir dessas vivências. A captura dessas imagens é um gesto de reconhecimento da identidade cultural da região.
Corpos que atravessam o tempo, carregam saberes, espiritualidades, resistências e modos de existir. Vidas que guardam histórias, e que permanecem vivas, na resistência da oralidade e na forma de amar. Ao reunir personalidades afro-indígenas, a exposição afirma a importância de reconhecer essas trajetórias como parte fundamental da construção social, simbólica e estética do território sul-baiano.
Um eixo fundamental da mostra é o trabalho de pesquisa coordenado por Mither Amorim, desenvolvido pelas pesquisadoras Natália Santos (Natigrê) e Carol Matos, que se dedicaram durante três meses a um processo de escuta e investigação que o projeto denomina de poética-biográfica. A partir do material levantado — memórias, relatos, documentos e percepções sensíveis — foram construídos textos sobre a vida e a contribuição de cada uma das personalidades homenageadas. Esses conteúdos integram a exposição, ampliando o encontro entre imagem e narrativa.
Instalada no espaço urbano, a mostra transforma a cidade em lugar de encontro e memória. Os retratos ampliados, distribuídos pelas ruas, convidam o público a caminhar e a perceber o cotidiano sob novas camadas de significado. A experiência expositiva começa ocupando o território físico e se desdobra no ambiente virtual, por meio de um site dedicado ao museu, onde os visitantes podem acessar os textos biográficos, registros e outras camadas de conteúdo, prolongando o contato com essas histórias.
Com direção artística geral de Thierry Brito, direção de produção de Camila Camuso e fotografias do artista convidado Paulo Ferreira, a exposição articula criação estética, pesquisa e compromisso com a valorização das narrativas afro-indígenas do sul da Bahia.
território-corpo-memória nos convoca à escuta e ao pertencimento. Um convite para reconhecer que a memória não está apenas nos arquivos formais, mas vive nos corpos, nas presenças e nas narrativas que sustentam a continuidade cultural do povo sul-baiano.
No século XXI, os museus ocidentais, enquanto espaços dedicados ao acúmulo e à
hierarquização do mundo, chegaram a um ponto crítico de sua existência. Como
contraponto a esse cenário, surgem iniciativas como o Museu Afroindígena Sul Baiano,
propondo a reinvenção dessas instituições a partir de concepções, práticas e zonas de
influência de povos historicamente minorizados.
A Coordenação de Artes Visuais da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb)
reconhece na iniciativa uma atuação consistente e relevante no âmbito das artes visuais
e da cultura na Bahia, ao mobilizar, de forma sensível e crítica, as relações entre
memória, território e identidade a partir de trajetórias afroindígenas do sul do estado.
Mais do que apresentar obras ou reunir acervos, a proposta opera um deslocamento na
própria ideia de museu. Aqui, ele deixa de ser compreendido como espaço fixo de
preservação, classificação e exibição de objetos e passa a se configurar como um campo
dinâmico de relações, constituído por pessoas, histórias e saberes em contínuo
movimento. Trata-se de uma articulação de experiências situadas no sul da Bahia, com
reverberações em múltiplos contextos, dentro e fora do estado, ampliando o alcance das
narrativas indígenas, desafiando estereótipos e constituindo redes a partir de seus
territórios de origem.
Esse gesto também tensiona as fronteiras tradicionais das artes visuais. Ao se afastar de
uma compreensão restrita a meios específicos ou a materialidades consagradas, a
iniciativa acolhe práticas que atravessam linguagens, suportes e formas de transmissão
de conhecimento, reconhecendo a dimensão estética presente em modos de vida,
rituais, oralidades e processos coletivos. Assim, amplia-se o entendimento das artes
visuais ao integrá-las a uma ecologia mais ampla de saberes e fazeres.
Em diálogo com os princípios da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura
(PNAB), o projeto reafirma a cultura como direito e como dimensão estratégica para a
construção de uma sociedade mais plural, fortalecendo, nesse caso específico, contextos
de criação, circulação e preservação simbólica por meio do trabalho contínuo da
memória, plasmado às artes. Ao se abrir ao encontro com diferentes públicos por meio
do site, a iniciativa também amplia o acesso às artes e contribui para a descentralização
das políticas culturais no estado, reafirmando a importância de persistir em uma política
de territorialização.
A Coordenação de Artes Visuais da Funceb celebra esta realização como um convite a
elaborar coletivamente o passado-presente, imaginando futuros possíveis a partir de
outras centralidades.
Uriel Bezerra
Coordenador de Artes Visuais/DIRART/FUNCEB